Quinta-feira, Julho 09, 2009

16 de Junho - O Dia da Juventude

Viiiiiixe, dois meses desde o último post! Caramba, fazia tempo que não deixava a minha janela para o mar tão abandonada. Bom, mas antes de continuar minha epopéia no caminho do Clã Bemati - O povo das Águas, rumo ao Oceano Índico, queria compartilhar este texto que escrevi no dia 17 de Junho a caminho da base de prospeção no Lucapa, nordeste de Angola.

“Passei ontem pela África do Sul ao voltar de duas semanas de férias na Namíbia e notei que era feriado por lá. O dia da juventude é celebrado a 16 de Junho, e tem como objetivo prestar memória a uma importante data que ficou marcada na história da África do Sul. No ano de 1976, jovens e crianças de raça negra saíram às ruas para protestar contra a obrigatoriedade do estudo do Afrikaans nas escolas. O Afrikaans é uma das línguas oficiais da África do Sul e foi criada pelos colonos que povoaram a região da Cidade do Cabo, a maioria destes eram descendes de Holandeses mas também haviam influencias de Alemães e Franceses entre outros europeus.

Os jovens protestavam contra o decreto de 1974 que forçava todas as escolas a ensinar metade das matérias em Inglês e a outra metade em Afrikaans, banindo oficialmente as línguas maternas do povo Africano. A caminhada pacífica agregou 10.000 jovens de todas as idades a protestar contra o “idioma do opressor”, mas também com um pano político de fundo, que se mostrava animado com as recentes vitórias contra os colonos brancos em Moçambique e em Angola em 1975. Tanta adrenalina e vontade de liberdade acabaram gerando um conflito ao qual a policia do Apartheid respondeu com chumbo pesado, tanto no dia da manifestação como no dia seguinte, distribuindo tiros no bairro negro de Soweto. Na época a agência Reuters noticiou “mais de 500 mortes”, porém dados oficiais apontam unicamente 23.

Isso é história e o mundo mudou muito nestes 33 anos que seguiram, porém ainda temos muito que alcançar. Continuo sonhando com a igualdade de direitos entre gêneros, raças ou religião e pela liberdade das escolhas pessoais. Que sejamos mais complacentes com o próximo e sigamos um princípio básico de irmandade que diz que o forte ajuda o mais fraco, o rico ao pobre, o saudável ao doente e assim por diante.

O mundo continua a mudar e cada vez mais rápido com o advento da tecnologia e sua mais recente maravilha, a Internet. É inegável o peso que ela teve nas últimas eleições norte-americanas onde finalmente conseguiram eleger alguém que pensa mais no bem estar geral do que em seus interesses econômicos pessoais e tacadas de golfe. Gostei também de ver a CNN ensinando como ultrapassar o sistema de bloqueio e vigilância nacional para que as pessoas pudessem contar para o mundo via Internet sobre o que estava acontecendo no Irã, já que todos jornalistas estrangeiros foram retirados do país. Espero que cada vez mais pessoas possam fazer uso da tecnologia para dizer ao mundo que a Sra Mugabe acaba de gastar 10.000 dólares em uma bolsa em Paris enquanto seu país morre de fome, ou como o filho de Fidel vive uma realidade bem diferente dos restantes dos Cubanos. Mas principalmente quero ver a arma da Internet funcionando no meu país para banir definitivamente os Sarneys do seu MAR(anhão) de miséria, os Malufs e suas contas na Suíça, os donos de castelos, os senadores e seus atos secretos, os políticos que além de ganhar bem, trabalhar menos e contar com auxílio até para comprar terno Armani, ainda desviam dinheiro de merenda escolar, ambulâncias, estradas, universidades e sei lá mais o quê.

Porquê tanta opulência? Para quê tanto dinheiro? Não acham injusto um clube pagar 90 Milhões de Dólares por um jogador? Porque será que alguém que já tem mais de 500 milhões de dólares quer outros 10? Porque ficamos tão obcecados com os bens materiais? Carros, barcos, jóias, roupas de griffe, para quê tudo isso? Às vezes sinto vontade de fazer como Alexander Supertramp e desaparecer na natureza selvagem (Into The Wild). Definitivamente o mundo ainda tem muito que melhorar, precisamos de muitos Obamas na liderança de seus respetivos países, precisamos de muitos Obamas dentro de cada um de nós, vamos começar pela nossa família, nosso bairro, nosso trabalho e assim por diante. Vamos virar mais espirituais e menos materialistas. Namastê!"


Crianças na vila do Lucapa - Angola

Domingo, Maio 03, 2009

O Último Rei da África

Já virei o ano diversas vezes na maior queima de fogos do mundo e acompanhado de dois milhões de pessoas em Copacabana, já o fiz em outras praias do Brasil, assim como com meu irmão Zoroastro acampando sozinhos no interior de São Paulo. Também passei outras tantas viradas na Colômbia das quais as mais especiais foram as que desfrutei ao lado da minha família paterna, vó Tita e vô Tito entregaram ao mundo 10 filhos, imaginem as festas com toda essa gente reunida. Mas estava com vontade de experimentar algo novo e porque não a minha primeira virada do ano na África?


A idéia foi colando e em novembro a Anita e eu decidimos que iríamos passar o ano em um país de nome estranho que eu jamais tinha ouvido falar na minha vida, a Suazilândia. Trata-se de um minúsculo país de 17.000 Km2 (a grande São Paulo mede 8.000 Km2) que se localiza praticamente dentro da África do Sul bem na fronteira com Moçambique.



Mapa da África Austral. Dentro da África do Sul há dois paises independentes, Lesotho e Suazilândia.

Cada país Africano, por menor que seja, já é de por si só todo um universo à parte. As fronteiras que delimitam os países mais ou menos como as conhecemos hoje em dia foram traçadas na Conferência de Berlim em 1884, quando colonizadores europeus dividiram-se o continente entre si sem nem sequer conhecer a geografia do continente e muito menos os reinados, monarquias, grupos étnicos e outras sociedades tradicionais africanas ali existentes. Muitas dessas fronteiras traçadas eram linhas retas de latitude ou longitude determinada que separaram pelo menos uns 190 grupos étnicos: Os Bakongos foram divididos entre o Congo Belga, o Congo Francês e a Angola Portuguesa; a Somália foi distribuída entre os Ingleses, Franceses e Italianos. Por outro lado, os europeus chegaram a colocar dentro de uma mesma colônia até 250 povos completamente diferentes, sem história, religião, cultura ou dialeto em comum, como foi o caso da Nigéria. Em outras regiões, inimigos de longa data passaram de um dia para o outro a fazer parte de um mesmo país, como no Sudão e o Chad, juntando as porções desérticas do Saara com floresta tropical ao sul, e povos muçulmanos e não-muçulmanos sob latente hostilidade entre si *. De todas as monarquias e reinados que existiam na África hoje pode-se afirmar que a Suazilândia é a última monarquia absoluta. Monarquia formalmente declarada, porque tem muito presidente africano que “reina” há muitas décadas no trono do seus respectivos países, e alguns até tem a cara de pau de dizer que governam um país democrático, como a Vossa Excelência Senhor Presidente Robert Mugabe. Mas enfim, Ce´s L’Afrique.

A virada do ano na Suazilândia é celebrada pelo seu povo em um festival que dura 3 semanas e cuja data de início é cuidadosamente escolhida pelos astrônomos suazis dependendo das fases da Lua. O Incwala, como se chama, é também conhecido como o “Festival dos Primeiros Frutos” e unifica o país para receber a benção de seus ancestrais, santificar o reinado de Vossa Majestade e iniciar a época da colheita com as melhores das esperanças.

O festival começa em uma Lua Nova próxima do nosso fim de ano. Dois grupos do clã “Bemati” – O Povo das Águas – partem da casa da mãe do rei com dois objetivos diferentes: O primeiro e maior grupo, parte rumo à Catembe, no sul de Moçambique, para colher a água do Oceano Índico que se acredita ter poderes místicos. O segundo e menor grupo, parte para o norte do país coletando as águas dos rios enquanto o Rei fica confinado em seu palácio. Os dois grupos regressam de suas respectivas missões e se congregam na residência real, antes da Lua Cheia. Ao anoitecer o Rei prova alimentos sagrados preparados com a espuma das águas que lhe trouxeram, e inicia o ritual cuspindo-os no chão de Leste para Oeste. O Pequeno Incwala então começa. Por dois dias o povo veste roupas tradicionais, dança e canta enquanto o Rei permanece trancado em reflexão.

O Grande Incwala começa na noite de Lua Cheia, durante este tempo o Rei permanece em isolamento e em comunicação com os espíritos dos ancestrais. O tempo de espera reflete o grau de maturidade do Rei, e à medida que os anos passam, as conversas com os espíritos ficam mais longas e consequentemente as festas também.

No primeiro dia, o rei envia alguns jovens a uma marcha de 40 Km para colherem ramos de uma árvore sagrada iluminados pela luz da lua. Somente jovens considerados “puros”, ou seja, que não tenham sido casados ou engravidado uma mulher, podem tocar a árvore, caso contrário suas mãos se tornarão brancas e os “puros” de verdade vão lhe encher de porrada. Os jovens regressarão à meia noite com os ramos coletados e enquanto descansam os anciãos usam-nos para construir um local sagrado para o Rei. Os guerreiros vestem-se com as roupas do Incwala feitas de couro e pele de leopardo e começam a cantar musicas enquanto um boi negro é trazido para o pavilhão de rei e é usado no ritual.

No terceiro dia do Grande Incwala outro boi é sacrificado, e enquanto os guerreiros dançam o Rei volta a surgir diante do seu povo trajado de elegantes vestes tradicionais. O Rei dança e toma em suas mãos uma abóbora da primeira colheita que ele morde e arranca o primeiro pedaço de sua casca. A multidão canta e dança de alegria. Agora todos podem comer os “Primeiros Frutos” da colheita com a benção dos ancestrais.

O quinto dia é dedicado à meditação.

No sexto dia, uma imensa fogueira é acesa onde são queimados artigos que representam o ano que passou. O Incwala termina com muitos cantigos, dança e festa.

Definitivamente é uma festa muito especial, e se você está ansioso para ver as fotos imagine eu então para curtir essa balada. Pois acontece que os astros não estavam a nosso favor nesse sentido e o Incwala este ano acabou por ser celebrado 2 semanas antes da nossa chegada.

Mesmo assim a Suazilândia já tinha nos atraído e continuava sendo uma ótima opção para se conhecer mais um país africano enquanto fazíamos como o povo das águas e migrávamos para o Oceâno Índico por estrada.

Visitamos a reserva reserva natural das Quedas de Phophonyane, a capital Mbabane e a bonita região do Vale do Céu. Tivemos a oportunidade de conhecer uma vila tradicional Suazi, ver suas danças e aprender como eles vivem tradicionalmente no país: Ante tudo, e como é costume na África, há muito respeito pelos “mais velhos”. Tudo que alguém da vila fôr fazer deverá consultá-lo e sua última palavra será respeitada. Vai comprar um boi? Fala com o mais velho, quer casar com aquela menina de 12 anos e pagar a família dela 30 cabeças de gado, fala com o mais velho, briga de família, o velho resolve. Os homens andam sempre na frente das mulheres e cada um pode casar-se quantas vezes quiser, sempre e quando puder sustentar todas as suas esposas. Os suazis são um povo muito respeitoso e educado, e é com enorme alegria que você irá receber um ‘bom dia’ de volta, principalmente se você se atrever ao pronunciar a expressão na língua local.

Nosso quarto na Reserva Natutal de Phophonyane. Arquitetura tipicamente Suazi.


Reserva natural Phophonyane

O próprio Rei, Sua Majestade Mswati III tem atualmente 22 esposas. Desde 1986, ano em que assumiu definitivamente o trono após completar 18 anos, ele se casa com uma mulher diferente todo ano em outra cerimônia tradicional nacional. Seu pai, o Rei Sobuzha II, teve 80 esposas e deixou mais de 1000 netos! Todas as esposas do Rei são escolhidas pelos anciãos e são sempre das diferentes tribos do país para assegurar a unificação de todo o Reino.

Mulher em trajes típicos na aldeia Suazi.

Esse dia é marcado com uma cerimônia especial chamada “Umhlanga ou Reed Dancing” que traduzindo literalmente significa festa “A Dança das Canas”. Além de ser o dia do casamento do rei, também vêem à capital damas de todo o Reinado para se exibirem aos homens e se tiverem sorte saem da cerimônia com uma proposta de casamento.

A festa que se celebra no estádio da capital é aberta a todos homens do país assim como a turistas e pessoas que queiram testemunhar. As mulheres do Reino, as turístas e outras irão sentar-se na tribuna onde não bate sol e na qual o único homem ali sentado em seu estrado será Sua Majestade. Os homens vão torrar na tribuna que fica exposta ao sol e observar o desfile das candidatas, que pode ter até 10.000 mulheres exibindo seus atributos (somente a parte superior) para os pretendentes a futuros esposos. Deve ser sem dúvida uma cerimônia bem interessante e normalmente ocorre entre finais de Agosto e começo de Setembro, dependendo dos astros é claro. Agora não adianta os solteirões encalhados me perguntem se um estrangeiro pode ir lá e escolher uma mulher Suazi nesse dia porque eu não me atrevi a perguntar.

Música e dança tradicionais na aldeia Suazi

E ano novo então? Nosso amigo Google nos falou de uma festa mexicana na capital e como não havia nada tradicionalmente Africano à vista decidimos encarar para não passar batido. Fomos até animados com a idéia de dançar una salsa y un merengue, mas quem falou que Africano sabe fazer festa mexicana? Da lá era só a decoração, muitos sombreros mexicanos e a comida, porém faltava picante e minha guacamole bate a deles em 10 a zero, ahhh e tequila é claro, havia muita, e de graça. Nem preciso dizer que a festa bombou né? A casa estava cheia de vizinhos sulafricanos e turistas de outras nacionalidades. Haviam DJ’s e tocou uma banda da Cidade do Cabo que mandou muito bem um folk com influência africana. Os caras me apresentaram pela primeira vez um instrumento de percussão com som muito legal, coloco aqui o vídeo e quem por acaso souber o nome do instrumento por favor me avise.

Arriba, arriba, arriba...

A festa foi no House on Fire, Washa Umkhukhu na língua local.

A casa pegou fogo mesmo

Happy new year! Um feliz 2009 para todos!

Outras boas impressões do país são os artesanatos locais, principalmente uma fábrica de velas bem especiais, e uma visita a uma fábrica de extração de óleo de canho, Sclerocarya birrea. O canho, que em inglês se chama marula, é o fruto de uma árvore endêmica do sul da África de onde de se produz o famoso licor Amarula. A castanha do canho é muito rica em óleo com excelentes propriedades medicinais e cosméticas. Entretanto o mais interessante e inspirador do projeto é a sua variável social já que a fábrica compra as sementes somente de comunidades locais que se organizam em cooperativas para dar uma segunda forma de renda às famílias. Todo o processamento do óleo é manual e o projeto só emprega mulheres para o seu processamento, e preparo dos cosméticos.

Muita Luz sempre. Vela artesanal produzida por Swazi Candles.

Entramos em 2009 com uma excelente energia depois de 3 dias na Suazilândia. Agora era hora de tomar o rumo do povo das águas e partir para o Oceânico Índico onde eu iria conhecer a família da Anita que é justamente de Moçambique.

Banda Hot Water mandando bem na virada do ano. Coloquei o vídeo só para descobrir o nome desse instrumento de percurssão. Quem conhece?






* Fragmento de texto adaptado do livro: The State of Africa, M Meredith.

Segunda-feira, Março 09, 2009

Domingo no Lucapa

Atualmente eu praticamente vivo numa base de prospecção de geologia no nordeste de Angola, mais precisamente a dois quilômetros da Vila do Lucapa na Província da Lunda Norte, digo vivo porque passo dois meses aqui e depois saio duas semanas de folga. Para quem não é familiarizado com o geologês, a prospecção são todas as etapas que antecedem a descoberta de uma mina de qualquer tipo de minério, seja ouro, petróleo, fosfatos ou no meu caso, diamantes. Aqui em Lucapa os portugueses exploravam diamantes dos rios e paleo-rios desde os anos 1920 e a cidade já foi o grande polo mineiro de Angola. Pela história de tantos anos de exploração na região faz sentido pensar que estamos procurando a mina no lugar certo.

Yo em frente a minha "casa" e a minha querida mangueira.

Lucapa, assim como o resto de Angola, sofreu fortemente os males da guerra e o abandono, mesmo que as minas aluvionares nunca tivessem parado de funcionar. Hoje a região está completamente sub-desenvolvida, sem saneamento básico, sem energia elétrica e com um hospital que quase me arrancou as lágrimas quando o visitei. Não consigo entender porque em outras regiões eu vejo claramente os sinais da reconstrução nacional chegando, como na vizinha cidade do Saurimo, que entre a minha primeira e última passagem notei um progresso incrível. Como é que uma região que já deu, e ainda dá tanta riqueza para Angola continua tão subdesenvolvida e esquecida pelo seu governo? Bom, imagino que deve ser pelo mesmo motivo que Macaé no estado Rio de Janeiro, cidade que mais recebe royalties da indústria do petróleo, é como é. Eu não conheço, mas recentemente um amigo meu que mora lá se referia a ela como “Macamerda”. Ficou claro que não é um dos melhores lugares para se viver, nem lá, nem aqui.

Meus vizinhos do bairro do Roque
Amigo, amigo, amigo... assim eles estão sempre me chamando.

Na base vivemos aproximadamente umas 40 pessoas, entre angolanos, brasileiros, sulafricanos e alemães. Já fomos mais, porem a crise mundial também por aqui já se fez sentir. Todas as comodidades possíveis estão disponíveis na base, como Internet banda-não-tão-larga-como-gostariamos 24 horas, salão de jogos, televisão satélite, salão de festas, academia de ginástica, campo de vôlei, campo de futebol e área com churrasqueira. Nós trabalhamos de segunda a sábado (até o meio dia) e nos finais de semana não podemos contar com a Vila do Lucapa para fazer algo diferente, porque ali não tem praticamente nada interessante, nem uma discoteca, um restaurante, ou sequer um supermercado. Então a nossa família, porque acabamos virando família mesmo convivendo tanto tempo juntos, tem que se virar por aqui para fazer algo diferente nos finais de semana e sair um pouco da rotina. De vez em quando tem uma festinha mas o mais comum mesmo é curtir embaixo de uma grande mangueira na área das tendas. Ali rola churrasco todo final de semana, de vez em quando feijoada, vaca atolada ou almoços típicos Angolanos. Nunca falta a música e tem até quem se atreva a tocar um sambinha de vez em quando.

Amistoso de final de semana, aqui são todos da casa.

Picanha.

"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é..."

Do meu lado, ultimamente tenho praticado bastante caminhada aos domingos. É uma oportunidade boa para ficar a sós comigo mesmo, refletir e até fazer as minhas primeiras tentativas de meditação, tentativas disse bem, mas sei que uma dia eu chego lá. No últimos 2 domingos levei a minha máquina fotográfica e o resultado me tem agradado bastante, estão lá no meu Flickr no Set Lucapa.

Damas! Posso jogar?

Ontem entretanto decidi mudar um pouco a rotina, em vez de ir partir para o isolamento na minha árvore de sempre, fui explorar o bairro do Roque, bem em frente da nossa base, e que por incrível que pareça eu jamais tinha entrado nestes 3 anos de Angola. O passeio rendeu altas fotos, e muitos amigos. Causei um alvoroço no bairro. À medida que eu ia entrando todo mundo queria ser fotografado e crianças apareciam de todos os cantos. Era quase impossível fazer as fotos do jeito que eu gostaria, com um sujeito só. Sempre tinha gente entrando na frente, atrás, passando, pulando, fazendo caretas. Aos poucos eles foram pegando o espírito da coisa e me ajudavam gritando, só ele, só ele. Depois de tirar a foto eu não tinha como fazer diferente, tinha que mostrar para todo mundo. Formava-se então uma enorme roda ao meu redor e eu tinha que ir passando a câmera para todo mundo ver, não faltavam os empurrões e até uns tapas na cabeça, mas com certeza todos estavam se divertindo com o “chimbale” aqui (atenção, não é chindele não, é chimbale mesmo, chindele é Umbundo, aqui se fala Tchokue).

Roubando um comentário de um desconhecido no meu Flickr: Criança Sonha!

Tem até placa e controle remoto

As crianças, espertas como sempre, entenderam o que eu queria fotografar e me guiavam, “tio, olha aquela lavando roupa; tio, olha a mamã cuidando da mandioca; tio, faz uma foto minha; tio, a moto; tio, seu cabelo é natural?, tio, tio, tio....” a media que eu avançava mais e mais crianças iam se juntando, no final era como uma procissão, eu andando e muita criança me seguindo e gritando e chamando mais crianças, pense uma bagunça bem grande. Vi dois amigos jogando damas, desafiei, me sentei, e ganhei, não sem antes suar bastante de tanta torcida ao redor. Levei uns pirulitos para distribuir mas se eu tivesse tirado o primeiro do bolso eu provavelmente provocaria uma grande briga e até corria o risco de ficar pelado, voltei com eles no bolso mesmo, vou deixar para quando for para as bandas mais isolado.


Mamã lavando roupa

Mamã cuidando da mandioca. Sempre as mulheres trabalhando. Hoje era 8 de Março dia Internacional das Mulheres. Parabens mamã, parabens mulheres.

Depois, mesmo que eu quisesse já não conseguia mais ficar sozinho, acabei encerrando o passeio por alí mesmo, e as crianças todas me acompanharam até o portão da empresa. Agora eu quero ver é como é que eu vou fazer para aparecer por lá novamente, vai ter tanta gente me cobrando a foto no papel e sei que vai ser inútil tentar explicar que estão todas na Internet.

Tchao chimbale!

Ehhhhhhhhhhhhhhhh

Domingo, Fevereiro 22, 2009

De Rolê pela África do Sul

Um ótimo país para se começar a explorar o continente africano é a África do Sul. A partir de São Paulo chega-se em um vôo sem escalas até Joanesburgo. Quem quiser conhecer outros países africanos provavelmente irá usar esta rota, de onde se voa para praticamente todo o continente. Tá certo que do Rio de Janeiro também se voa direto para Luanda em Angola, mas pessoalmente não recomendo essa porta de entrada para África até que as linhas aéreas Angolanas sejam retiradas da lista de empresas aéreas banidas de voarem para Europa, as comissárias de bordo sejam trocadas por pessoas que têm prazer em realizar esse tipo de trabalho e finalmente até que o novo aeroporto de Luanda fique pronto. Tudo junto deve demorar pelo menos uns 4 a 5 anos dependendo de quem estiver construindo o aeroporto, se forem chineses, pode ser um pouco antes, se forem brasileiros ou portugueses deve demorar um pouco mais.


Yo na cachoeira Berlin

River Blyde Canyon

Mas voltando a África do Sul, o país me surpreendeu desde a minha primeira visita em 2004. Esqueça o estereótipo que se tem da África selvagem e rústica, porque dependendo de onde nos encontramos nos sentimos em um país do primeiro mundo com estradas impecáveis, aeroportos gigantescos e metrópoles cosmopolitas. O país não está imune dos males que açoitam África, mas sem dúvida está à frente do resto do continente no seu combate. Também há aquela situação histórica que ainda demora algum tempo para ser superada, mas para o turista desatento e concentrado em suas férias essa tensão que anda no ar pode até passar despercebida.

Janela de Deus, Mpumalanga.

Nas terras altas de Mpumalanga

Para os amantes da vida selvagem o país tem inúmeras reservas naturais e parques nacionais em que se podem realizar safaris de carro, em jipe aberto, caminhando (tem doido pra tudo) ou de balão (quem pode pode). Neste meu primeiro começo de ano no continente Africano eu fui matar a minha curiosidade em um dos cartões postais da África do Sul, o Parque Nacional Kruger. O gigantesco parque se estende por 350 Km no sentido norte sul na fronteira com Moçambique e Zimbabwe, onde se diz existir a maior diversidade de animais selvagens de África. Vale a visita, mas depois de conhecer o Serengueti na Tanzânia a tarefa do Kruger de me impressionar ficou bem difícil.




Para os amantes do mar (e quem não gosta?) a África do Sul possui costa no litoral Atlântico que trazem as gélidas correntes marinhas da Antártida e onde se localiza a sempre viva, linda e liberal Cidade do Cabo. Na costa leste está o cálido Oceâno Índico e a cidade de Durban que representa uma fusão de África, Europa e Índia. Não faltam escolas de mergulhos, praias para praticar surf, kite-surf e wind-surf e baías para navegação de todos os tipos de embarcações.


Sai da frente! Parque Nacional Kruger.

Foto desde o refugio para observação de aves. Parque Nacional Kruger.

Em termos de infraestrutura turística o país conta com facilidades de primeiro mundo. Os lugares turísticos são sempre muito organizados e com acessos facilitados para pessoas de todas as idades. Os vendedores de artesanato têm sempre seu lugar determinado e não são chatos como é muito comum em diversos lugares turísticos noutras partes do mundo. Podem-se fazer reservas em centenas de hotéis e pousadas via Internet que vão dos mais luxuosos como o Seis Estrelas em Sun City a simples casas de família adaptadas para receber hóspedes de uma maneira bem agradável. A gastronomia, com uma extensa carta de vinhos locais, um excelente serviço e um preço pra lá de acessível tornam os restaurantes da África do Sul realmente especiais. Tambem existem estradas famosas por sua beleza como a rota dos jardins, a rota das vinícolas ou as estradas na região montanhosa de Mpumalanga a qual percorremos nas férias e de onde são as fotos desta postagem. A propósito se por acaso uma dia passar por lá não se atreva a desafiar sua namorada a saltar em um dos maiores pêndulos em canyon do mundo, pode ser que ela aceite, e aí meu amigo, você vai ter que pular.

The Big Swing - 68 metros de queda livre.


Caramba, mas que idéia a que eu fui ter!

Prontos? Yo não, perai, explica de novo, como é que é...






O grande salto


Radical !

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Diários de Campo, Venezuela. Parte 2, final.

Para ler a parte a parte 1, clique aqui.
Quarta-feira, 27 de Agosto de 2003

Até agora nada foi mais frustrante nesta campanha do que ver o helicóptero rodear as nossas cabeças com mantimentos e ir embora sem pousar. Estávamos a alguns dias sem carne, sem enlatados e sem outras coisas básicas. A refeição era a mesma a uns três dias: macarrão (sem molho nem nada), feijão (sem alho, nem cebola ou qualquer outro tempero) e arroz (só com sal e óleo).

A situação ficou tensa, conversei com meu chefe e ele me disse que o helicóptero voltaria no dia seguinte a primeira hora, e que o piloto tinha reclamado do tamanho da clareira e tínhamos que dar um jeito de abrir um pouco mais. Para nós aquela estava de bom tamanho e enviamos a moto serra por terra para o próximo acampamento. A solução foi baixar as árvores no facão.

Impressionante o que 5 pessoas com facão e fome são capazes de fazer, agora podíamos ver que haviam claramente duas árvores que estavam atrapalhando a nossa clareira, uma era simples, um açaí bem comprido que se colocava bem no caminho de aproximação do helicóptero, parecia longe, mas interferiu. A outra sim foi bem complicada, era uma árvore grande e grossa que as raízes começam a se espalhar antes mesmo de chegar no solo. Essa deu trabalho, suor e bolhas, mas conseguimos. No domingo o helicóptero voltou. Que felicidade com tão pouca coisa. Frutas, verduras, doces e 2 pequenos rádios foram as encomendas mais apreciadas. Eu não perdi a oportunidade para diminuir o meu peso, mandei os livros que já li e a minha máquina fotográfica com a teleobjetiva, aqui a chuva e umidade são tantas que eu temo que a mesma se danifique. Não é uma decisão fácil mas o alívio do peso e não estragá-la não me deixaram arrependido.




E não é que o Miguel conseguiu tirar uma foto escondida dos índios? Alí no meio estamos o Daniel e eu negociando. Sei que não é uma boa foto mas serve como registro do momento.


Aos trancos e barrancos vamos avançando na nossa campanha, com alguns erros e algumas jogadas de azar além de um mapa que não nos fornece informações precisas.

Já começamos a chegar às famosas anomalias. Foram feitas 2 de 4, sendo a última mais distante de todas e que deve consumir pelo menos uma semana de trabalho.

A primeira deu um contundente resultado negativo. A segunda, verificada hoje, também deu negativo porém foi mais animadora. O ponto negativo do dia foi o meu mau humor. Parece que cheguei no meu limite, não sei se o fato de estar chovendo demais ou o tempo que estou no mato já está me agonizando. Cheguei até a pensar várias vezes se tanto sacrifício vale a pena. Trabalhar com prospecção, longe de casa em um acampamento na Bahia é uma coisa. Agora, trabalhar no meio do mato, tomando chuva, vestindo roupas molhadas, só andando a pé, comendo mal, tendo que lavar roupa todo dia, enfiando o pé na lama de noite, sem ter notícias da sua casa e de quem te ama, sem ver um jornal, sem ver pessoas diferentes, sem dormir em uma cama de verdade todos os dias e sem muitos outros prazeres simples da vida, é demais.

E pensar que só se passou um mês! Como explicar para o meu amor que é difícil fazer um telefone via satélite pegar no meio desta grande floresta? Como fazer para pelo menos poder falar 5 minutos com ela sem que desapareça a porra do sinal? Que merda! Definitivamente se isto aqui se tornarem os trabalhos rotineiros da minha vida como prospector, então terei que mudar de carreira. Bom, talvez tanta chuva no miolo que peguei o dia de hoje me fez ficar meio em pane. Mas sem dúvida é um trabalho bem difícil. Ou não? Bom posso estar exagerando, ao fim de contas ninguém pegou malária, hepatite ou leximaniose... ainda!


Por hoje chega, já desabafei, espero que este tempo melhore para melhorar também meu humor. Boa noite e bom sol amanhã!

Domingo, 31 de Agosto de 2003

Sunday? Ha ha ha! Me conte uma de português agora! Rainday, seria mais apropriado. Ou melhor rainy week (semana da chuva). Nunca vi tanta chuva na minha vida! Foi a semana inteira chovendo aos cântaros, parece uma cachoeira que vem do céu. Dia e noite, noite e dia sem parar. Não preciso nem dizer que o meu mau humor continua!

O saldo de tanta chuva é um funcionário com os pés em carne viva. Devido a um fungo (que também me pegou mais de leve) e outro com um dedo deslocado. Imagine subir um morro, carregando 20 Kg nas costas, depois de 3 a 4 dias chovendo, no meio da floresta Amazônica, onde o intemperismo é intenso e o solo se torna completamente argiloso devido à enorme taxa de decomposição/formação. É terrível, é um sabão e claro, você cai muito e as vezes se machuca. Devido a essa circunstância temos também 2 joelhos torcidos, Daniel e Cuto, e um dedo fraturado, também o pobre Cuto.

Este domingo passamos em uma ilha do Rio Cuchivero. Isso tem um lado bom e outro ruim. O bom é que voltamos a encontrar o rio principal que devemos amostrar. Parece ser navegável daqui pra cima e acho que vou pedir para o helicóptero trazer novamente a lancha. O ruim foi a péssima idéia de acampar em uma ilha em plena época chuvosa.

No começo parecia um bom acampamento: plano, seco, sem vestígios de subida de água (e como vínhamos de uma semana seguida chovendo, imaginamos que a ilha já estava a salvo). Ao nosso redor se notava que tudo estava alagado muito além do canal do rio. As árvores que pareciam distantes do canal tinham água nos troncos e seguindo o princípio de que a água já estava no máximo, acampamos no que parecia ser um dos melhores acampamentos até hoje. A propósito este é o nosso 14º acampamento em 31 dias.




Yo no campo, sem espelho e sem lâmina de barbear.



A primeira noite passamos sem problemas. No dia seguinte a chuva se fez presente como sempre e nos castigou durante o dia todo. Quando fomos dormir o rio já tinha começado a subir. Eu estava a uns 3 metros da margem da ilha e durante a noite escutei que a água se aproximava. Era 1:00 da manhã e ela já estava a 1 metro da minha rede. E a chuva sem parar. Uma coisa eu já tinha aprendido: nada fica no chão! Como isso já estava feito, enfiei meu facão no solo e nele atravessei a única coisa que ainda estava no chão e poderia ser levada pela chuva, os meus chinelos. Marquei um ponto de referência e voltei a dormir ao som de muita chuva. Quando acordei para dar uma revisada a água já estava em baixo da minha rede e continuava subindo. Por azar meu eu tinha pendurado a minha rede não muito alta e o medo de ser acordado com a água batendo na bunda me levou a molhar os pés e refazer os nós da rede um pouco mais curtos, o que me dava mais uns 30 cm de altura. O resto era deixar nas mãos de São Pedro e tentar dormir, saibamos que não corríamos perigo, o único problema era mesmo ficar molhado durante a noite.

Ao raiar do dia comprovei mais uma vez a eficácia do nosso esquema de acampar. A água tinha avançado 1 metro além da minha rede e por pouco não deixa a ilha toda em baixo de água. Mesmo assim as minhas coisas e eu estavamos completamente secos.

Que grande merda! A semana inteira calçando uma bota molhada e bem no domingo, dia de ficar de chinelo e tomar um sol no pé para tirar o lodo... chuá! A ilha inteira é um charco. Os lugares que não estão inundados, brotam água ao pisar. A cozinha foi tomada toda pela água. É claro que logo cedo não pulamos da rede, mais ainda ao ver o estado da cozinha e prever que o café da manhã iria demorar para sair.




Wilmer Rojas e a cozinha.


Ao ler isto vocês devem estar se perguntando: Mas porque eles acamparam na ilha? Bom, depois de 7 horas andando carregado a gente não tem muita paciência para procurar por muito tempo por um local perfeito. Naquela área todas as encostas que chegavam ao rio eram fortemente inclinadas e longas, ou seja, se quiséssemos acampar em um lugar razoavelmente plano ficaríamos a uns 40 metros distante da água. O que com essa inclinação e mais as chuvas tornaria a simples tarefa de pegar água e tomar banho um tanto complicada e arriscada. Imagine descer uma encosta molhada para pegar água às 5 da manhã! O risco de escorregar é grande e acabamos fazendo a escolha pela ilha. Na verdade não acho que seja uma ilha verdadeira, mas como o rio estava bem cheio aquela parte tinha ficado rodeada por água, porem uma árvore gigante já caída fazia de ponte perfeita para nós.

De todas as formas amanhã devemos mudar. Temos que escolher um lugar para abrir uma nova clareira para o helicóptero. Desta vez este vem para trazer mantimentos para outros 25 dias de mato e a lancha para continuar subindo o rio. Vamos ver se aprendemos a lição e fazemos esta clareira direitinho. Duas vezes o mesmo erro não é aceitável. Só espero que ele possa vir nesta semana, caso contrário vamos passar uns maus dias a partir de quinta-feira. Falta de comida!

Hoje acabou-se agosto, já foram 31 dias no mato e a contagem regressiva começou! Faltam 27 dias para sair daqui. Apesar do meu mal humor o dia de hoje teve seus bons momentos. O primeiro e mais importante foi que bati um recorde no telefone satélite, consegui falar por 11 incríveis minutos com a Flávia. A outra foi que meu chefe entendeu meus argumentos e decidimos cancelar a verificação daquela anomalia distante por estar completamente fora de rota.

Bom, agora só falta diminuir a chuva, esperar que dê tudo certo com o helicóptero e que o rio seja bem navegável daqui para cima. Sorte daqui para frente. Novo mês, novos ares!

Terça-feira, 2 de Setembro de 2003

Segundo dia do mês nove e começamos com o pé direito. A chuva deu uma certa trégua, agora só está chovendo de noite, e no que levo do mês não precisei colocar uma roupa molhada pela manhã. A melhoria no tempo nos fez adiar por dois dias a mudança de acampamento enquanto fazemos trabalhos de amostragem na região e abrimos a clareira para o helicóptero. Tarefa alias que dá um trabalho inimaginável. Quem pensa que é só ligar a moto serra e pronto está tremendamente equivocado. Tanto é duro que já levamos dois dias trabalhando nele e ainda não está pronto.

Hoje saiu uma equipe de 4 homens, liderados pelo Miguel, rio acima. O objetivo é ir amostrando um lado do rio e dividir o pessoal já que não podemos ir todos na lancha. Se tudo sair bem o helicóptero vem na sexta-feira e começamos a subir o rio para encontrar essa equipe rio acima em um ponto combinado, algo assim como onde o rio principal cruzar uma latitude combinada, já que não podemos confiar nos mapas que temos nos entregamos ao GPS. Assim que o helicóptero chegar tenho que mandar mais mantimentos por terra para o pessoal que subiu hoje. Dá para ver que nada pode sair errado desta vez, o helicóptero tem que pousar, e na primeira tentativa.

É muito mais fácil ficar em um acampamento fixo. Isso, somado a diminuição da chuva e de confirmar minha viagem para São Paulo me tem muito animado. Aqui ficamos até o domingo, pelo menos, e daí faltarão apenas 20 dias para ir embora. Desses 20, 2 devem ser para abertura do terceiro e último heliporto, e dos 18 que restam, 3 serão domingo. Ou seja, são só mais 15 dias de perrengue... UHU!!! Depois: namorar, família, amigos, cerveja, cinema, sorvete, TV, água quente, privada, civilização, poluição, ruído, gente, que bom, que bom, que maravilha!

Só para terminar o dia de hoje e como ainda não bateu o sono aqui na minha rede eu vou descrever meus dois colegas brasileiros nesta aventura. Um deles é o Miguel, tem 40 anos, mora em Goiânia, é assistente de prospecção, tem 15 anos de empresa e é um excelente trabalhador. Nunca vi alguém andar tão rápido no mato, que fôlego! O apelido dele por aqui é Niño Malo, algo assim como Garoto Mau, porque sempre quer avançar mais e nós todos já estamos reclamando de cansaço. Tem muita experiência com lancha na região Amazônica e adora pescar. O único problema é que por andar sempre na frente às vezes toma algumas decisões sem discutir com a gente. Qualidades são muitas, começando pela eficiência, gentileza, disposição para o trabalho e claro, ótimo pescador. O outro figura é o Daniel Cirilo Borges, 50 anos de idade, mora em Cachoeira no Rio Grande do Sul, casado, tem 3 filhos e trabalha na nossa empresa a 30 anos, a maioria deles na Amazônia e com lancha. Por ser o mais experiente sempre escutamos muito os seus conselhos e acaba nos guiando sempre para as decisões certas. Tem também uma grande disposição e força, ele é um touro. Por culpa de uma encosta molhada torceu seu joelho logo na primeira semana, mas se recusou a voltar no helicóptero. Isso o tem feito avançar um pouco mais devagar, mesmo assim sempre muito carregado e na maioria das vezes na frente de vários colegas. Adora futebol e seu time de coração é o Vasco da Gama. Carrega um radio de pilhas para todo o lado. Neste ele escuta seus jogos e todos nos mantemos informados das notícias do Brasil e do mundo. Tem uma grande habilidade para montar seu barraco e sempre faz um bom banco, no qual estamos sempre sentados os três ouvindo as notícias da voz do Brasil ou discutindo a programação do dia seguinte. É um tirador de sarro dos maiores, tá sempre brincando e me fazendo rir. Às vezes ficamos ao lado de sua rede, ele deitado, Miguel e eu sentados, ouvindo suas histórias dentro da empresa. Tem cada uma mais cabeluda que a outra, e o jeito dele contar é sempre muito engraçado. Cada coisa que ele já viveu nestes 30 anos! É outro excelente trabalhador e grande companheiro, estou muito feliz de ter conhecido esta figura e ter podido aprender muitas coisas com ele. Ao que parece está nos seus últimos dias na empresa, com processo de aposentadoria na fila de espera do INSS, que este ano parece ter ficado mais de greve que funcionando.



Daniel e Miguel retirando uma amostra no rio.


Hoje eu paro por aqui, ao som da chuva no meu barraco, logicamente. Só mais um dia São Pedro! Só mais um. Vai com calma esta noite.

Domingo, 7 de Setembro de 2003

Parece que minhas preces foram ouvidas. Setembro começou bem melhor que Agosto. Chovendo muito porém só fim de tarde e à noite. Isso, somado ao tempo em contagem regressiva que parece andar mais rápido, mais a segunda vinda do helicóptero que foi um sucesso me tem muito animado. Também trocamos de telefone satélite, porque aquele parecia estar cada dia pior, o novo prometia muito, mas hoje já me deixou na mão.



Helicópetero trazendo mantimentos.



Aproveitando a vinda do helicóptero eu voltei a subir no bicho para fazer um reconhecimento aéreo rio acima e voltei a ficar tonto, já tinha vontade de vomitar quando desci. Com o reconhecimento vimos que o rio é navegável e pedimos a lancha.

Agora estou aqui subindo o rio de lancha, junto com outros três funcionários, o Daniel entre eles enquanto o Miguel e outros 7 funcionários vão por terra.

Bom, vou parar por aqui aproveitando o sono que está batendo. Esse tem sido um dos problemas dos últimos dias, a falta de sono. Levamos tanto tempo de mato e dormindo cedo que começa a sobrar sono. Na noite anterior acordei às 3 da madrugada e não teve jeito de dormir de novo, a não ser, é claro, pouco antes da hora de levantar.

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2003

Realmente as coisas mudaram neste mês! O meu mau humor foi-se embora e hoje em dia estou até trabalhando feliz e curtindo bastante. O motivo, simples, acho que desde o começo do mês não pego uma chuvona forte na cabeça. Desapareceram os morros, estamos com bastante comida, estou subindo o Rio só de lancha (que é uma delícia), estamos no rio certo, o trabalho começou a render bastante e por último e mais importante, o tempo está voando. Parece que quando estamos curtindo não sentimos o tempo passar. Volto a apreciar a beleza desta selva e seus animais, sinto-me um privilegiado ao estar andando por aqui, lugar onde tenho certeza que nenhum outro homem branco pós os pés antes.

Subir o Rio de lancha é tão bom quanto um passeio turístico. Vamos vendo tartarugas, araras vermelhas, antas e ao mesmo tempo tomando sol, coisa muito apreciada nesta floresta tão alta e fechada. Sem contar que não temos que caminhar e não corremos o risco das picadas de cobra (na média vemos uma cobra por dia). É claro que não é um passeio de luxo, mas os sacrifícios da lancha são facilmente superados. Um deles são as árvores caídas no canal do rio, isso implica agachar-se, passar por meio de um montão de galhos te arranhando e às vezes podem existir marimbondos nesses galhos, que atualmente representam o nosso único risco.

Outro sacrifício é quando temos cachoeiras ou corredeiras fortes. Hoje passamos por uma cachoeira de mais de 5 metros de altura, maravilhosa, falha não estar com a minha máquina. Como passamos a cachoeira? Por fora claro. Temos que descarregar a lancha, abrir um caminho por fora e passar tudo por terra, inclusive a lancha, seu motor, os 150 litros de gasolina, o pequeno gerador usado para recarregar o telefone satélite, a moto serra, enfim, várias viagens. Ainda bem que a equipe de terra já havia chegado e aberto o caminho para a lancha e nos ajudou a fazer a transposição das coisas. As duas equipes dormiram no mesmo acampamento, no dia seguinte eles se abasteceram de comida e saíram na frente novamente.

A equipe de terra também é muito beneficiada com a lancha porque não tem que carregar tanta comida nas costas e até coisas pessoais que estão sobrando a cada um vem para a lancha. Isso faz as caminhadas também avançarem mais depressa. Como eu disse, tudo saindo muito bem. Espero que essa onda positiva me acompanhe até o dia 25, porque assim vai chegar em um piscar de olhos.

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2003

Pobre de mim tão inocente! Passeio turístico de lancha? Ha ha ha, parece uma brincadeira agora que vejo isso escrito. PQP, isso sim, vai tomá no... pois é, cheguei até a pensar que estaria melhor se eu estivesse na turma que está andando a pé!

Depois do dia que eu escrevi aquelas coisas sobre a lancha tudo começou a mudar. Ao regressar de uma expedição de dois dias para coletar umas amostras retomamos a subida no rio de lancha na quarta-feira, e descobri que o passeio não tem nada de turístico. A propósito dessa expedição por terra, acabamos encontrando índios no caminho, mas bastou dizer que eu tinha permissão do Cacique José para podermos continuar, ou seja, aquela bagunça do primeiro dia foi um errado que no final deu certo.

Voltando a subida do rio este continua bem caudaloso, porém a navegação era péssima devido aos galhos e troncos. Quando chegamos nas partes onde o rio não é encaixado no vale, ou seja, nas planícies, a coisas piora. É o dia inteiro batendo machado (claro, pedimos um depois daquele desastre com a primeira clareira) e facão para poder avançar no rio. O motor praticamente não funciona 3 minutos seguidos sem diminuir o ritmo. Se fosse só galho até ía, mas tem muitos formigueiros nesses galhos, que caem dentro da lancha, junto com aranhas e insetos, mais toda a vegetação e o pior, espinhos, te agarram e não soltam mais. A gente só deu sorte foi de não ter sido picado por abelhas e maribondos, os poucos que haviam no caminho os enxergamos a tempo e tomamos providencias como jogar um pouco de gasolina ou desviar quando possível.

Quando o rio está completamente desobstruído a lancha anda a uma velocidade de aproximadamente 10 Km por hora. No primeiro dia avançamos 4 Km em 6 horas! Para acabar de ajustar choveu o dia inteiro e você na lancha não se mexe muito, o que faz a gente morrer de frio, coisa que apesar de todas as chuvas que já tinha recebido eu nunca tinha sentido precisamente por estar sempre andando. Nesse dia o clima estava péssimo, o lancheiro (motorista da lancha) lá trás e o cara da frente, que vai cortando os galhos e abrindo caminho, não paravam de discutir e brigar. A coisa estava tão ruim que uma hora eu perdi o controle e acabei gritando com o lancheiro. Nesse momento eu estava congelando, com algo no olho me incomodando e enrosquei nos espinhos por estar com eles fechados, o lancheiro não parou o que fez com que os espinhos me machucasses ainda mais e eu estourei. Dia nervoso. Paramos tarde. Deveríamos ter encontrado a equipe de terra se tivéssemos avançado 8 Km, mas como eu já disse só fizemos 4. Isso foi na quarta. Na quinta não choveu, porém o rio piorou. Com muito sacrifício avançamos 3 Km em 6 horas! Tivemos que acampar sem encontrar a outra equipe.

Nesse momento eu começava a me preocupar com eles, se ainda teriam comida para mais um dia e que eles não tentassem voltar e nos perdêssemos uns dos outros. Nossa sorte foi que ao começar a navegar na sexta chegamos a uma cachoeira logo a uns 1.000 metros do ponto onde dormidos. Lá estavam eles conforme combinado, nos esperando assim que vissem uma cachoeira para decidir o que fazer.

A cachoeira na verdade era uma série de corredeiras de uns 150 m de extensão e deste ponto para cima o rio já não é mais navegável.

De todas as formas o tempo já não daria para ir muito longe, graças a Deus, já é quase hora de ir embora.

Decidimos então montar o nosso acampamento final e fazer o resto dos trabalhos a pé regressando para o mesmo ponto. Isso me tem muito feliz, faltam somente 6 dias e não vou precisar mais montar meu barraco de novo, que a propósito já consigo fazer sozinho só que ainda demoro umas duas horas na tarefa. Até hoje foram 22 acampamentos diferentes! Agora uma equipe vai as amostras e a outra fica abrindo o heliporto, eu fico, é claro.

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2003

Minha única preocupação no momento é o danado do telefone satélite. A última vez que funcionou bem foi no domingo passado. Meu último contato com o escritório foi na sexta passada, última vez que eu passei as coordenadas da nossa posição.

Se eu não conseguir me comunicar novamente o helicóptero virá acompanhando o rio a partir dessas últimas coordenadas até achar a clareira. Não é uma tarefa fácil porque o rio é bastante sinuoso e dependemos de uma boa visibilidade mas é a nossa única opção. Se o helicóptero não conseguir avistar a clareira na primeira tentativa, imagino que poderemos passar outro dia aqui devido à distância ao ponto de abastecimento que vem sempre aumentando.

Agora pensando melhor esta é a minha primeira preocupação, a segunda é a nossa comida que está chegando perto do fim e a terceira é a minha falta de comunicação com Flávia. Neste domingo vamos completar 15 dias sem conversar, espero que ela não esteja preocupada e tenha um pouco de paciência. Tomara que esta situação de falta de comunicação melhore amanhã.

Domingo, 21 de Setembro de 2003

Estamos aqui no mesmo acampamento desde quinta-feira, o heliporto está praticamente pronto, o sol está brilhando forte todos os dias e esperamos o helicóptero a partir de terça.

Hoje aconteceu algo incrível por aqui. Justamente o Daniel, que quase nunca sai para pescar decidiu ir a pesca de barco. Eu o acompanhei para tentar pela milésima vez falar ao telefone com o escritório e passar as coordenadas de nosso heliporto. Faz mais de uma semana que aproveito toda clareira que aparece, cada momento de céu aberto, e ultimamente o nosso heliporto para olhar no telefone e ver se ele apresenta o sinal de cobertura de satélite. E foi lá no meio do rio, quando eu olhei já completamente descrente de que essa joça fosse voltar a funcionar que vi o indicador de sinal se iluminar. Meu coração começou a palpitar mais rápido: “Daniel, Daniel, tem sinal cara, tem sinal, uhuuuu” “Liga, liga logo antes que desapareça”, ele disse. Foi então que eu pensei, hoje é domingo, é hora do almoço, se eu ligar no escritório/casa da empresa pode ser que não ache e o Adjair pois ele deve ter saído para almoçar. A Flávia, pode acontecer a mesma coisa. E agora? E se eu tiver somente uma chance? Escritório do Brasil, tem sempre segurança lá, 24 horas, 7 dias por semana. Disquei, chamou, me atenderam. Meu coração queria sair pela boca, começei a falar as coordenadas como um louco, o porteiro não sabia nem como copiar esse monte de números, me acalmei e finalmente consegui passar as coordenadas e as instruções de como as anotar adequadamente. Desliguei pensando, vou ligar para o Adjair agora, más já não havia mais sinal. Ficamos uma hora alí e nada do sinal aparecer novamente. Imaginei papai do céu abrindo uma brechinha para eu captar o sinal somente naquele preciso momento. Nunca mais consegui falar ao telefone. Um milagre, pensei eu.

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2003

Hoje eu fui acordado com um dos barulhos mais lindos que eu já ouvi na minha vida, o de um helicóptero aproximando-se. Foi uma enorme surpresa já que o esperávamos para terça ou quarta-feira, porem já tínhamos tudo pronto. Me aprontei em dez minutos e quando cheguei ao heliporto o pássaro de ferro já estava no solo. A campanha irá começar a partir deste mesmo ponto depois das boas e merecidas férias de todos nós.

Nos despedimos daquela floresta com a satisfação da missão cumprida e até com certa disposição para encarar novamente o desafio e completar o nosso objetivo. Do alto eu via a copa das árvores e pensava nas belezas, surpresas e desafios que se escondem embaixo daquela vegetação e agradecia ao meu anjo da guarda poder compartilhar pessoalmente meu Diário de Campo com as pessoas que amo.


Piloto ao fundo, Miguel e Yo abraçados e felizes por estar voltando com a missão cumprida.




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Post-script: Enquanto eu estava na mata Hugo Chavez aumentava seu discurso nacionalista e chegou a tomar de uma empresa de prospecção um jazigo mineral que a mesma tinha encontrado após anos de pesquisa e milhões de dólares investidos. Obviamente a Venezuela deixou de ser um alvo de pesquisa para a minha empresa e nada foi mais triste que ver as amostras que renderam tanto suor e esforço irem para o depósito sem sequer completar as análises.

Domingo, Janeiro 25, 2009

Diários de Campo, Venezuela. Parte 1 de 2

Caros leitores e amigos,

Aqui estou de volta ao trabalho em Angola e a esta minha janela sobre o mar. Desfrutei de umas revigorantes e agitadas férias como de costume, estive um pouco com minha família em Ribeirão Preto e depois estive passeando com a minha namorada pela África. Novas culturas, novos amigos, novas paisagens e novas estórias que irei compartilhar em breve. Enquanto preparo o novo material queria dividir com vocês este meu diário de campo de 2003. Devido a extensão do texto decidi dividir o mesmo em 2 partes. Agradeço muito especialmente a
Malaika pela digitação do calhamaço que se encontrava engavetado há anos. Por último desejo um ótimo ano a todos, especialmente aos meus sobrinhos: os que acabaram de chegar, os que por aí vêm a caminho, e à aqueles que o tio não vê a algum tempo mas estão aqui sempre no meu coração.


Domingo, 17 de Agosto de 2003

Hoje eu nasci de novo! Só assim posso começar a escrever sobre esta minha aventura com prospecção de diamantes aqui na Venezuela.

O fato de ver a morte a passar ao meu lado, mais especificamente no formato de um pesado tronco de árvore que caiu e passou zumbindo ao lado da minha orelha, me fez pensar em muitas coisas na vida. Coisas que já vivi, as que ainda quero viver, pessoas com quem quero compartilhar minha vida, enfim, me fez refletir sobre o risco desta profissão, sobre este lugar e pensar se realmente vale a pena tanto sacrifício.

Se aquele pesado tronco cai 30 cm mais para cá, ou a se a minha cabeça estivesse um pouco mais para lá, com certeza eu não estaria aqui escrevendo isto. O temor de ir embora deste mundo e não poder dizer à minha mãe, meu irmão e minha mulher quanto eu os amo me fez prometer que esta noite eu começaria um diário por se alguma coisa me acontece daqui para frente. Espero que jamais me venha a suceder algo, mas em todo o caso digo a vocês três que os amo muito, que são as três pessoas mais importantes na minha vida e que tudo que eu desejo é que sejam felizes e continuem vivendo a vida intensamente, como se cada dia fosse o último dia de nossas vidas.

Que coisas as que estou escrevendo né? Acho que dá para se ter uma idéia do tamanho susto que passei hoje.

O que eu queria mesmo era desabafar escrevendo aqui neste pedaço de papel e isso que nem comecei a descrever a minha aventura.

Tudo começou no primeiro dia do mês de Agosto de 2003. Eu estava ansioso e animado porque iria voar pela primeira vez de helicóptero e conhecer de perto a selva Amazônica da Venezuela. Sou o geólogo responsável por duas equipes de prospecção que deverão subir o Rio Cuchivero realizando amostragem aluvionar e verificando umas anomalias geofísicas interessantes. Uma equipe deve ir por terra e a outra pelo rio em uma lancha com um pequeno motor.


Saida do ponto de apoio. Até aqui chegava o asfalto, e partimos no helicóptero. Nota-se que o rio está bem cheio.

O começo foi um desastre. A falta de mapas precisos da região, combinado com a pressão por pousar rápido devido à grande distância de vôo para se chegar no limite da savana com a floresta amazônica, nos fez aterrizar em um afluente do Rio Cuchivero. Nosso primeiro erro. Depois, ao tentar chegar novamente no rio correto fomos cair em outro afluente, só que desta vez 10 Km distantes do nosso objetivo inicial, e não 1,5 Km como da primeira tentativa. Impressionante como 30 segundos de vôo te levam tão longe quando se está no ar. Toda essa operação que ía dando errado, aumentava consideravelmente o custo devido ao tempo de vôo do helicóptero. Cada nova tentativa implicava regressar mais uma hora de vôo para reabastecer e tentar novamente achar o local correto de aterrizagem entre aquelas montanhas e inúmeros afluentes que até pareciam o rio principal. Eu estava num nervo só.


Nessas todas tentativas o dia ia avançado e como o lugar era bom decidimos acampar nesse segundo ponto e procurar o rio principal no dia seguinte. Logo cedo pela manhã o helicóptero chegou com mais carga e combustível e estávamos todos prontos para uma última série de viagens até o rio certo. Eu estava no telefone satélite conversando com o meu chefe que se encontrava em Ciudad Bolivar coordenando toda a operação quando comecei a avistar uns índios aproximando-se. Lembro-me de ter dito algo assim como: “Adjair, estão vindo uns índios aí, são uns 5, não peraí, uns 10... caramba, são muitos e estão todos armados, te ligo depois”. Eram aproximadamente uns 40 índios armados até os dentes com lanças, facas e escopetas, isso mesmo, índio do século XXI tem escopeta, e nos rodearam rapidamente. Esse foi meu primeiro contato com um índio em seu território, com sua indumentária original e em formação de caça onde claramente éramos a presa no meio do círculo.

Caramba e agora? Não tínhamos feito nenhum plano caso isso acontecesse, eu não sabia se os índios eram agressivos, nós estávamos no lugar errado e seguramente o barulho de helicóptero os atraiu para o local. Quando chamaram pelo responsável eu me senti como naquele desenho animado do cachorro na legião estrangeira, quando pedem um voluntário e todo mundo dá um passo para atrás, e lá fiquei eu no meio da roda. Eu não sabia exatamente o que dizer mas óbviamente não mencionei nem uma palavra sobre achar uma mina de diamantes. As desculpas sobre o pouso equivocado não foram suficientes para partir em paz e minha presença foi exigida diante do cacique. Passado o susto já estava eu excitado com a idéia de visitar a tribo indígena e fazer as melhores fotos da minha vida. Fotos? Nem sonhando, eles foram bem claros e para bom entendedor um simples gesto bastou.

Primeiro acampamento. No limite entre a Savana e a Floresta.

Acontece que para chegar na tribo eram necessárias umas três horas de caminhada (a passo de índio!), motivo óbvio pelo qual decidimos ir de helicóptero. Mas para ir de helicóptero tínhamos que voltar uma vez mais ao ponto de apoio para abastecer, e então lá fui eu de novo dar uma volta no “pássaro de ferro” que as estas alturas eu já não achava graça nenhuma e descobri que dá um enjôo danado (ou será que foi só eu?). Nessa confusão toda empreendemos viagem só que eu acabei esquecendo de telefonar para o Adjair para dizer o que tinha sido acordado. Já devem imaginar o alívio que ele sentiu ao ouvir a minha voz novamente mais ou menos 1 hora e meia depois da nossa última conversa.

Uma hora depois voltamos ao ponto correto de aterrizagem, deixamos combustível para fazer as transferências e voamos para ir falar com o Capitão José, o cacique dos índios.

A aldeia era imensa, moravam lá mais de 300 índios, aparentemente de 2 tribos diferentes. Foi grato encontrar uma equipe de médicos universitários venezuelanos fazendo um trabalho de prevenção de doenças endêmicas e duas freiras, uma delas colombiana que ficou encantada ao me escutar falando espanhol com o sotaque da sua terra, para onde não ía a uns 20 anos. Todos ajudaram a quebrar o gelo com os índios e depois da minha conversa com o capitão José a nossa permissão tinha sido concedida. Nós tínhamos permissão do governo da Venezuela para realizar o trabalho e além das nossas amostras estávamos recolhendo dados para o instituto geológico do país, já que estávamos entrando em terra incógnita. Por fim voamos para o famoso Rio Cuchivero e montamos o nosso acampamento no final da Gran Savana Venezuelana. A aventura estava só começando, já era 3 de Agosto, e meus dias de roupa seca se aproximavam do seu final.

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2003

Quando me disseram que iria passar vários dias no mato, logo pensei na tradicional barraca com saco de dormir e o isolante, isso tudo deve pesar uns 6 Kg e ocupa um espaço razoável dentro da mochila. Porém algo me disse que eu deveria experimentar o esquema que o pessoal já usa a tanto tempo em diversas campanhas na região amazônica brasileira, mesmo achando que não iria conseguir dormir na rede por diversos dias consecutivos.

Com o tempo descobri não só ser mais vantajoso o esquema do pessoal com a rede e mosquiteiro, como impossível montar uma barraca por onde andamos devido ao terreno acidentado e quase sempre molhado e com pedras. O peso da rede e o mosquiteiro não deve chegar a 0,5 Kg mais a lona que deve pesar uns 2 Kg, é um esquema leve e que não ocupa quase nada de espaço. Porém montar a rede todos os dias é um pé no saco. Basicamente trata-se de arranjar um modo de apoiar uma vara central na qual se pendura a rede e sobre a qual a lona é colocada. Para apoiar essa vara central vale achar uma bifurcação numa árvore, ou o que é mais comum, fazer um apoio com quatro forquilhas, ou menos, dependendo se se arranjam outras árvores para servir de apoio para as forquilhas.

Agora imagine andar o dia todo com um mochilão nas costas depois de ter tomado chuva por um bom tempo, ter enfiado o pé no barro, descido e subido morros, atravessado rios e ao chegar no local do acampamento ter que montar o seu próprio barraco. Que sacrifício! Nessas horas eu mal tenho forças para levantar o facão! Ainda tem que se procurar as árvores certas, cortar e carregar tudo até o ponto onde se vai armar, que além de difícil de achar, deve ser limpo. Era realmente uma rotina chata. Normalmente eu estava terminando de montar o meu acampamento quando os peões já estavam deitados nas suas redes de banho tomado. Neste ponto tenho que agradecer imensamente ao meu colega brasileiro e chefe de uma das equipes, o Miguel Teixeira, que sempre, sem exceção de nenhum dia, vem me dar um força com o meu barraco. Ele já montou o dele próprio e vem me ajudar com o mais difícil que é achar, cortar, carregar e montar o varão principal. Às vezes ele me ajuda até a montar uma prateleira para colocar as coisas.


Meu primeiro barraco. Aqui ainda estávamos na Savana.

O Miguel é um dos brasileiros comigo, o outro é o Daniel Cirilo Borges, esse faz até banco no seu barraco, lugar no qual eu estou sempre jantando. Mais tarde falo um pouco mais dos dois e do resto da nossa equipe que ao total são 11 pessoas comigo, 3 brasucas e 8 venezuelanos.

Agora eu vou descrever a rotina de um dia normal por aqui. Acordamos em torno das 6:30 da manhã. O cozinheiro já preparou o café da manhã, deve ter feito uma das três opções: Arepa frita, que é tipo uma tortilha de milho e come-se muito na Colômbia e Venezuela; às vezes tem algo que eles chamam de domplim, também é frito, e é como um bolinho de chuva mas do tamanho de um sapo; ou temos as panquecas, tudo isso puro, sem nada de recheio ou para untar. Para beber pode ser achocolatado, aveia, café com leite ou natilha, que também é comum na Colômbia mas eu jamais pensei que pudesse ser bebida, é algo como um mingau de maizena. Assim que terminamos o café nós servimos o almoço que vamos comer mais tarde, o “bandeco” na gíria brasileira, a marmita ou a famosa bóia fria. Os dois cozinheiros Wilmer e Mael se levantam às 4:00 da manhã para ter tudo isso pronto para as 7:30 no máximo. Ahhh, lição importante antes de armar o seu barraco, espere os cozinheiros escolherem o lugar onde eles vão montar a cozinha e fique bem longe dela, caso contrário será acordado bem cedo.

Depois do “des jejum” e o bandeco servido vem a terrível tarefa de vestir a roupa de campo, tarefa essa que às vezes é realizada antes das anteriores. Terrível pelo fato de 95% das vezes a roupa estar toda molhada, e quando digo toda me refiro a todas as peças:, a cueca, as meias, a calça, a camiseta e a bota, além de suja, muitas vezes imunda. Alem de molhada a roupa está fria por causa do frio da madrugada. Ninguém vai usar uma roupa seca porque sabe que vai estar molhada logo logo.

Após vestidos é hora de desmontar o barraco e fazer com que todas as coisas caibam dentro da mochila da melhor forma possível. Nela eu carrego a minha roupa, a rede, a lona, papeis (mapas, artigos, bloco de anotações, caderneta de campo, autorizações e documentos dos motores), dois livros, lanterna, cantil, remédios, objetos pessoais, o magnetômetro portátil, minha máquina fotográfica e o telefone satélite com duas baterias extra. Como podem imaginar é um peso considerável, fora isso algumas vezes ajudo a carregar uns 4 a 5 Kg de comida, mas só quando é realmente indispensável, dessas vezes que a gente vê os peões fazendo um esforço sobre-humano em prol do trabalho coletivo e não tem como você não se esforçar um pouco mais.

Há vezes que não precisamos desmontar o acampamento no dia seguinte, ficamos dois ou três dias em um mesmo ponto realizando campanhas de amostragem durante o dia na região.

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2003

Bom, depois de desmontado o acampamento saímos caminhando em fila indiana, seguindo alguém que vai na frente com um GPS ou bússola e abrindo caminho no rumo que nos interessa. Nosso objetivo é verificar algumas zonas anômalas que foram identificadas com um sobrevôo geofísico que capta a diferença de magnetismo das diferentes rochas da terra. Os kimberlitos, ou rocha mãe dos diamantes, são precisamente mais magnéticos que as outras rochas, por isso nosso objetivo é verificar essas anomalias magnéticas, que podem, ou não ser rochas kimberlíticas e portanto, podem, ou não ser portadoras de diamantes. Além disso, vamos rumo às cabeceiras do Rio Cuchivero recolhendo amostras aluvionares. A marcha quase sempre é por caminhos nunca antes percorridos, ou seja, vamos abrindo picada, o que resulta em muitos cipós te prendendo os pés, muitos galhos para se abaixar, desviar, pular enfim, cansativo. Em certo período da nossa campanha estava chovendo todos os dias, nesses momentos não se pode fazer nada diferente a seguir caminhando. Capa de chuva? Nem pensar! Ficaria toda rasgada. E o pior é que com a chuva o peso da mochila só vai aumentando. Temos que subir e descer muitos morros, que às vezes são tão inclinados que a gente sobe escalando ou gateando. Agora imagine um morro desses e uma tremenda chuva? É um sabão! O espetáculo não é nada divertido.

No caminho passamos muitos rios, alguns pequenos em que só molhamos as botas, outros maiores que nos molhamos até os joelhos ou cintura ou que geralmente construímos pontes. Essas pontes não são nada mais do que um único galho para equilibrar-se e tratar de não molhar as botas, porém se se escorrega se molha muito mais do que se molharia se atravessasse o rio por dentro. Esses são no mínimo uns 5 por dia.

Tem também os rios que são tão grandes que não temos outra opção a não ser nadar. Para isso eles têm um esquema que funciona com perfeição, como eu mesmo pude comprovar. Trata-se de pegar a lona de cobrir a rede e fazer uma trouxa com ela, jogando tudo que você tem dentro. Pode-se pôr a mochila com toda a carga, a roupa que a gente leva no corpo, as perneiras, as botas e até um pouco mais. Depois é só dar um nó bem dado na parte de cima, prender uma corda para segurar a trouxa e se mandar para a água. O negócio flutua de uma tal maneira que você pode se apoiar nele que não afunda. Parece fácil, certo? Nem um pouco! A tortura começa quando você tira a roupa e os insetos parecem te comer vivo. Nunca senti tanta picada ao mesmo tempo, mal conseguia continuar arrancando o resto da roupa de tanto que eu me coçava. Ainda bem que o prestativo Miguel estava lá para me ajudar a montar a minha trouxa, porque eu não conseguia fazer outra coisa a não ser me coçar e matar mosquitos. Depois disso é se lançar na água e segurar com força para sua carga não ser levada pela correnteza do rio, e claro, tem que nadar meu amigo, senão você vai parar longe do ponto de saída, tamanha é a força da correnteza.


Um dos problemas é que não tínhamos salva-vidas, motivo que dificultava bastante nossa travessia. Os salva vidas estavam a uns 10 Km para atrás, no lugar onde decidimos abandonar a lancha, devido a algumas longas corredeiras que faziam o rio completamente não navegável. Depois de passar o rio a tortura dos insetos voltava, eram tantas picadas que eu não conseguia desamarrar minha trouxa para pegar minha molhada roupa, esse dia tinha chovido para não perder o costume. O Miguel estava lá de novo com um repelente que foi um tremendo alívio.

Continuando com um dia normal, às 12 mais ou menos atacamos o nosso bandeco que cada um já vem carregando desde de manhã. É bóia fria mesmo acompanhada de suco de saquinho nos primeiros dias e água de bica quando os saquinhos acabam.


E sobe morro e pega amostra.... ia ia ôôô

Normalmente vemos cobras, aranhas gigantes e às vezes umas antigas cabanas de índios. São locais que eles construíram na época seca enquanto fazem grandes excursões pelo seu território desbravando, caçando e seguramente passando conhecimento para os mais novos. Nesta época de chuva, só branco doido mesmo andando por estas terras. A propósito se não fosse pelos índios não estaríamos tão rapidamente aqui onde nos encontramos. Isso porque sempre que podemos avançamos rio acima seguindo caminhos de índios. Eles devem usar estes unicamente na estação seca e para nós estão sendo de imensa utilidade. É incrível ver como eles andam todo este imenso território. Eles devem fazer grandes excursões rio acima, com o objetivo de demarcar e conhecer seu território. Estamos a mais de 15 Km da aldeia do cacique José e ainda temos picadas deles por todos lados, assim como cabanas que eles devem usar como paradas. Eles devem fazer a mesma coisa que nós estamos fazendo: descobrindo, desbravando e desfrutando, devem ser grandes campanhas de caça e reconhecimento.

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2003

Depois do bandeco, 5 minutos de descanso e continuamos caminhando e tomando mais chuva. Mais ou menos às 2 da tarde é hora de começar a procurar um lugar ideal para acampar. Sem dúvida alguma deve ser próximo ao rio e de preferência num sítio plano mas não muito baixo para evitar inundações de surpresa.

Quando achamos a área, é hora de cada um encontrar o seu próprio canto para montar o barraco e começar aquele procedimento de limpar, achar a madeira, cortar, transportar, montar, esticar a lona, pendurar a rede e por último tomar um banho e vestir a roupa seca.

Nessa hora, que para mim é sempre perto das 6 da tarde, mesmo com ajuda do Miguel, meus pés são uma verdadeira uva passa já que entraram às 7 da manhã em umas meias e botas molhadas e enfrentaram o dia todo de caminhada, chuvas e rios. Seca-los bem é fundamental e requer um pouco de paciência, tamanha a umidade local.

É hora de tomar um café quentinho e esperar a janta. Esses foram sem dúvida os melhores cafézinhos da minha vida! Se esses dias de traslado são difíceis para mim, imagine para os cozinheiros que acordam às 4 da manhã para fazer o bandeco e café da manhã. Assim que paramos têm que arrumar um lugar para a cozinha, procurar lenha (para hoje e para a manhã do dia seguinte) montar o cafézinho e depois começar a preparar a janta, para finalmente montar seu barraco, e depois voltar a agilizar a comida para o dia seguinte.

É claro que existe consideração e os que acabam primeiro sempre ajudam a montar o barraco dos cozinheiros. Mas de todas as formas são os últimos a ir tomar banho e relaxar.

Para jantar também não temos muitas opções, básicamente temos arroz, macarrão, carne enlatada, feijão e verduras (nos primeiros 8 a 10 dias) que são combinados de diversas formas para variar o menu, mas que ao final de contas acaba sendo sempre repetitivo. Um dia a carne é frita, no outro guisada, no outro com arroz e assim por diante com todas as opções.

Não posso esquecer de mencionar os milagrosos peixes que o Miguel andou pescando para variar nosso cardápio. No total foram uns 4 dias que ele conseguiu pescar, sendo que um dia desses ele pegou um bagre de uns 20 Kg que durou 3 dias. Desafortunadamente a pescaria se reduziu à medida que subimos o rio e deixamos para trás grandes cachoeiras que impedem a subida dos peixes grandes. Hoje em dia só se pescam lambaris, um tipo de peixe bem pequeno, que se come inteiro, é só fritar e mandar ver. Mesmo estes têm sido muito apreciados devido à falta de carne e enlatados (que em parte ficaram lá na lancha). O pescador agora é um dos nossos cozinheiros, o Wilmer Rojas, que está provisoriamente no cargo do colega Alvarado, que voltou no segundo dia com forte diarréia e vômito. Ainda bem que ele ficou doente quando ainda estávamos fazendo o traslado, caso contrário ía passar uns maus dias no campo até melhorar ou voltar de helicóptero em caráter de emergência. Isso me lembra do galho que quase me matou. Só por curiosidade informo que a abertura de um local para o helicóptero pousar, com uma moto serra e 5 a 7 homens trabalhando demora praticamente um dia todo! Lembrem-se que estamos na floresta amazônica e a savana só vimos no primeiro dia. Daqui para frente se quisermos que o helicóptero pouse temos que abrir uma clareira na mata para isso.

Neste aspecto a sorte tem estado do nosso lado porque a um funcionário, o Cuto, uma cobra picou bem no limite superior da sua perneira, 1 cm a mais e estaríamos em problemas que não quero nem imaginar. Dizem que a cobra era venenosa, quem vinha atrás conseguiu matar a bicha antes dela dar o segundo bote, era o Nestor Lopes o nome do herói da vez.

Continua....

Yo, geólogo