Meu rolê pelo mundo


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Domingo, Novembro 01, 2009

De Rolê Pelo Mundo

Depois de 3 anos de trabalho em Angola com inúmeras experiências e emoções neste e em outros países do continente Africano minha alma de aventureiro pedia mais. Sentia que era hora de explorar outros cantos do mundo e percebi que fazendo isso em intervalos de duas semanas a cada dois meses, como meu esquema de folga no trabalho me permitia, eu iria precisar de pelo menos uns 5 anos para conhecer os países da minha lista de lugares para se visitar antes que a energia e a minha situção pessoal mudassem. Além do mais, havia folgas em que tinha vontade de ficar com a minha família, de visitar amigos e passear no Brasil, e diga-se a verdade, estas duas coisas andavam bem escassas devido a minha gana de conhecer novos países Africanos.


Então no dia 31 de Julho de 2009, fortemente inspirado pela coragem da Flávia que sózinha encarou esse mundão, me despedi de Angola, dos novos e velhos amigos que por lá ficaram e dei oficialmente o pontapé inicial para o que seria a maior aventura da minha vida: Um rolê pelo mundo.


Devo admitir que não foi fácil me separar da empresa que me adotou desde que saí da universidade e que me brindou com a oportunidade de conhecer África. Tão pouco foi fácil abandonar o sonho da carreira internacional numa empresa de grande porte, que além da satisfação profissional traz consigo um futuro mais que tranquilo economicamente falando. Porém, como não é dinheiro o que move o meu mundo, e sim pessoas, emoções e vivências, bati o martelo e me senti super apoiado pela família, amigos e inclusive meus colegas e chefes do trabalho.


Após uma agradável visita à Pérola do Índico cheguei ao Brasil no maior pique para renovação de documentos, programação da viagem e a caça aos vistos. Quase que no dia seguinte já fui atrás de um novo passaporte que demorou uns 10 dias para ficar pronto, mesmo indo a São Paulo, senão seria mais de um mês.


Com o passaporte na mão, parti eu para Brasília para dar entrada ao primeiro visto que eu iria precisar, o da Austrália. Aproveitei para visitar alguns amigos e conhecer meu segundo sobrinho adotivo de nome Pedro. Ficamos amigos logo de cara. Sempre na correria, acabei não vendo todos os amigos que gostaria de ver por lá, mas fazer o quê? Fica pra pxóxima.


Era hora de pensar na passagem e quem acha que dar a volta ao mundo é coisa de milionário, lhes digo que as alianças das empresas aéreas competem entre si para oferecer uma variede de pacotes por mais ou menos 3.000 a 4.000 dólares. As maiores são a Skyteam, Star Alliance e One World.


Cada uma tem as suas regras, e depois de pesquisar escolhi o da aliança One World pelo seu preço e por ser o que tinha as linhas aéreas da rota que eu gostaria de fazer. Ahhh mas como eu passei horas na frente daquela telinha do programa da One World que te ajuda a montar o itinerário! Pesquisa sobre os países, quais são as melhores épocas para ir a cada lugar e quais eram as alternativas para usufruir ao máximo da passagem dentro das regras do pacote que eu iria comprar. Tive que tirar alguns países por onde gostaria passar e adicionar outros que não estavam nos meus planos iniciais, mas até aí eu continuava animado pelo excelente preço.Até descobri que tinha amigos na Finlândia que podia aproveitar visitar na parada que lá eu teria que fazer para ir da Índia para Moscow.


Entrentanto quando entrei em contato com a LAN Chile, a linha aére do meu primeiro vôo, tudo subitamente mudou. Algumas rotas sumiram, não haviam vôos disponíveis nas minhas datas, apareceram umas paradas que eu não precisaria fazer e umas conexões estranhas como esta que não tive como fugir que me obrigava a ir primeiro a Buenos Aires e depois a Sydney para me deslocar do Chile para Nova Zelândia, quando inicialmente o programa mostrava que eu poderia fazer esse trecho direto pela LAN Chile. Aí meu amigo, foi aquele manda email pra cá e pra lá por uma semana, os meus nervos à flor da pele, e no final a minha passagem de volta ao mundo ficou... do jeito deles. Sabe o quê? Dispensei! Decidi fazer a WRT (World Round Trip) por minha conta. Mesmo sabendo que vou pagar mais, viajo com a liberdade de ficar quanto tempo quiser onde quiser e mudar os meus planos conforme o andar da carruagem. A final de contas não é sempre que a gente tira um ano só pra isso, então, vamos fazer bem né?


Se não dei muita sorte na marcação da passagem, dependendo do ponto de vista é claro, hoje acho que é muito melhor ir livre e sem roteiro amarrado, tive sim a enorme felicidade de encontrar dois companheiros de aventura logo para a minha primeira parada que é o Chile. Juntos acabamos decidindo fazer uma caminhada na Patagónia. Um deles é o Vinícius, meu colega de turma, mais conhecido como Bacalhau graças ao cidadão aqui que no primeiro ano de faculdade ao encontrá-lo no ónibus que vinha de Sampa notou uma mancha de óleo na mochila dele e ao sentir o cheiro espalhando-se no ar deduziu imediatamente qual tinha sido o almoço de domingo na casa dele: BACALHAU!!!!! O outro companheiro é o Thiago, um colega de trabalho do Vinícius que ainda não conheci.


Com a passagem comprada e a data se aproximando faltava um pequeno detalhe, eu não tinha recebido meu passaporte da embaixada da Austrália e tive que colocar o plano B em ação, sem contar com a impossibiidade de aplicar a outros vistos. Mas como a sorte está do meu do meu lado, nosso pequeno bloco econômico do Mercosul me permitiu viajar sómente com o meu documento de identificação pessoal. Para melhorar ainda mais as coisas, o Thiago embarcava nessa viagem exatamente por Brasília e deve estar neste momento voando para Santiago de Chile com o meu passaporte na mão.


E assim embarquei eu quinta passada dia 29 de Outubro nesta viagem, não sem muito drama antes de começar, mas como diz meu amigo Earl, a vida precisa de drama, senão fica chata. Vamos nessa!

Domingo, Julho 26, 2009

Moçambique – A Pérola do Índico

E lá fomos nós depois do nosso ano novo na Suazilândia rumo ao Oceano Índico, não a pé como os Bemati, mas sim num carrinho alugado na África do Sul, coisa que recomendo muito para quem quer conhecer o sul do continente a preços que realmente valem a pena. Em somente 3 horas de viagem saímos da Suazilândia e chegamos na antiga Lourenço Marques, hoje Maputo, capital de Moçambique, nossos irmãos de pai colono assim como Angola, Guiné Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe na África.

Moçambique e Angola eram o que restava de mais valioso ao Império Português entre suas colônias ao redor do globo, e certamente estes não pretendiam por nada no mundo deixar as galinhas dos Ovos de Ouro escapulirem-se.

Foi nos libertinos e revolucionários anos 60 que começaram as guerras locais pela libertação de África, que ocorreram primeiro nas colônias Francesas e Inglesas. Nos irmãos do sul a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), partido formado pela união de 3 partidos e apoiados pelo então presidente da Tanzânia Julius Nyerere, iniciou a luta armada em 1964. Moçambique conquistou a independência em 25 de Junho de 1975.

Mas muito antes dos portugueses estabelecerem-se como donos do país, naquela partilha da África em Berlim de 1885, outra grande invasão ocorreu por aqui. Os Bantu, um povo cujas origens remetem-se ao centro da África, na região onde hoje se localiza a Nigéria, migraram para o sul do continente dominando todo o cone sul da África e disseminando os povos locais. As migrações dos Bantu, povos que dominavam a agricultura e metalurgia, iniciaram-se 1.500 anos A.C. e se estenderam até os anos 1.000 D.C. Ao longo do tempo, e devido ao crescimento demográfico, a novas invasões e principalmente a chegada dos mercadores árabes vindo do Golfo Pérsico, as linhagens Bantu foram sendo substituídas por reinados locais e aos poucos foram-se criando os estados mais ou menos como conhecemos hoje, sendo o primeiro deles o Grande Zimbabwe ao redor do século XIII. Aos poucos foram também diferenciando-se os grupos pós-bantu, sendo os dois principais os Nguni (Swazis, Zulus e Xhosa) que ocuparam a costa oriental da África, e os Sotho-Tswana, que viviam no planalto interior.

Os portugueses chegaram em Moçambas (o apelido é meu) no ano de 1497 e se interessaram pelo ouro, posicionamento geográfico e marfim da região, a nova colônia ficou conhecida como a Pérola do Índico. Com o passar dos anos muitos indianos para foram trazidos pelos colonos para trabalhar na região, estes se misturaram com a cultura local e formam um dos grandes grupos sociais do país até hoje. Depois da independência em 1975, dissidentes da FRELIMO voltaram-se contra o governo independente e começaram uma guerra civil que só culminaria em 1992. Em 1994 realizaram-se as primeiras eleições multi-partidárias no país, que foram vencidas pela FRELIMO que desde então, e por muito tempo mais seguramente, afinca-se no poder com unhas e dentes, fazendo de Moçambique mais um da lista de países Africanos de um partido só.

Cine África em Maputo

Catedral de Maputo

Edifício em Maputo

Esses olhos...

Em Maputo fui recebido de braços abertos pela numerosa e querida família da Anita. Fizemos os passeios de praxe na organizada e tranqüila capital e me impressionei com a beleza da Estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique (CFM) , cartão postal da cidade a e visita obrigatória a todo turista que passa por aqui. A estação foi recentemente eleita pela revista americana Newsweek como a 7ª estação mais bonita do mundo e foi também transformada num hotel para as filmagens de Diamantes de Sangue com o Di Caprio e suas peripécias Hollyhoodianas no submundo dos diamantes (clique aqui para ver a lista das estações mais bonitas do mundo com fotos).


Anita na estação dos Caminhos de Ferro de Moçambique - CFM

Depois de uns dias em Maputo era hora de ir desfrutar das praias do Oceâno Índico e realizar aquele velho sonho de mergulhar com mais equipamento que um simples snorkel. Depois de dois dias de teoria, prática na piscina e exames chegou a hora de encarar alto mar e fazer meu primeiro mergulho. Quando a instrutora me perguntou se eu estava pronto para cair na água eu respondi com um estrondoso não! Eu mal conseguia pensar de tanto enjôo que estava sentindo. Mas já estava ali, não teve jeito, pulei de forma desajeitada com a esperança de que lá embaixo as coisas estivessem mais agradáveis. Bastou um segundo para ver que o que acontece na superfície é simplesmente o reflexo do que acontece lá embaixo, e se as coisas estavam feias lá encima, lá embaixo o mar não estava para peixes não. Fomos direto ao fundo do mar, uns 8 metros, a praticar os exercícios necessários para a minha habilitação. A visibilidade era péssima, só enxergávamos a uns 5 metros de distância, devido as fortes chuvas dos dias anteriores. Apesar de tudo me adaptei bem ao equipamento e minha única preocupação no momento era passar nos exercícios e não perder de vista a instrutora, já que eu não queria me perder lá embaixo e ter que fazer as subidas de descompressão sozinho e sem o computador de pulso.


A instrutora Barbara Boscardin (Italiana) e eu ali nos preparativos finais "Sim chefe"

Saída

Chegada, e a a minha cara de felicidade de voltar a terra

Uiiii mas como é difícil fazer aquelas acrobacias quando mesmo embaixo da água a corrente não te permite ficar quieto, era onda para cá, onda para lá a toda hora, mas pelo menos o enjôo diminuiu dentro da água. Não posso dizer que esse primeiro mergulho foi exatamente o que eu sempre sonhei, e na volta do barco, já com os enjôos de praxe eu pensava que esse definitivamente não seria um dos meus hobbies favoritos.

No segundo dia de mergulho, num local diferente, as coisas foram bem melhores, tomei um anti-enjôo que me permitiu entrar na água já com melhor humor que no dia anterior, depois vi que a visibilidade era melhor (10 metros) e a corrente bem fraca, aí eu comecei a pensar que o que a instrutora me fez no dia anterior foi puro trote, botar o cara para sofrer no primeiro dia. Mergulhei até os 14 metros de profundidade e curti muito a biota marinha do Índico, aí sim meu amigo, o mergulho voltou para a minha lista de coisas legais para se fazer quando se está na praia.

Relaxamos uma boa semana na praia, curtimos com alguns amigos da Anita que por ali estavam e conhecemos mais algumas praias na região de Inhambane. Não posso esquecer de mencionar que nos deliciamos com culinária tradicional Moçambicana, que mistura frutos do mar e especiarias da Índia. Voltei para Maputo feliz de ter conhecido este lindo país ao lado da minha Pérola do Índico.

Edifício antigo em Inhambane (litoral)

Clube Ferroviário em Inhambane

Curtindo as delícias do Índico

Hotel Flamingo (ao fundo)

O Hotel Flamingo é suspenso no mangue

Mulheres locais atravessando o mangue próximo a Praia da Barra

Não é fofo!

Maré Baixa na praia do Tofinho

Maré Alta na Praia do Tofinho

Pôr do Sol em Paraíso de Chidenguele

Praia do Tofinho

Curtindo

Minha Pérola do Índico e Yo

Quinta-feira, Julho 09, 2009

16 de Junho - O Dia da Juventude

Viiiiiixe, dois meses desde o último post! Caramba, fazia tempo que não deixava a minha janela para o mar tão abandonada. Bom, mas antes de continuar minha epopéia no caminho do Clã Bemati - O povo das Águas, rumo ao Oceano Índico, queria compartilhar este texto que escrevi no dia 17 de Junho a caminho da base de prospeção no Lucapa, nordeste de Angola.

“Passei ontem pela África do Sul ao voltar de duas semanas de férias na Namíbia e notei que era feriado por lá. O dia da juventude é celebrado a 16 de Junho, e tem como objetivo prestar memória a uma importante data que ficou marcada na história da África do Sul. No ano de 1976, jovens e crianças de raça negra saíram às ruas para protestar contra a obrigatoriedade do estudo do Afrikaans nas escolas. O Afrikaans é uma das línguas oficiais da África do Sul e foi criada pelos colonos que povoaram a região da Cidade do Cabo, a maioria destes eram descendes de Holandeses mas também haviam influencias de Alemães e Franceses entre outros europeus.

Os jovens protestavam contra o decreto de 1974 que forçava todas as escolas a ensinar metade das matérias em Inglês e a outra metade em Afrikaans, banindo oficialmente as línguas maternas do povo Africano. A caminhada pacífica agregou 10.000 jovens de todas as idades a protestar contra o “idioma do opressor”, mas também com um pano político de fundo, que se mostrava animado com as recentes vitórias contra os colonos brancos em Moçambique e em Angola em 1975. Tanta adrenalina e vontade de liberdade acabaram gerando um conflito ao qual a policia do Apartheid respondeu com chumbo pesado, tanto no dia da manifestação como no dia seguinte, distribuindo tiros no bairro negro de Soweto. Na época a agência Reuters noticiou “mais de 500 mortes”, porém dados oficiais apontam unicamente 23.

Isso é história e o mundo mudou muito nestes 33 anos que seguiram, porém ainda temos muito que alcançar. Continuo sonhando com a igualdade de direitos entre gêneros, raças ou religião e pela liberdade das escolhas pessoais. Que sejamos mais complacentes com o próximo e sigamos um princípio básico de irmandade que diz que o forte ajuda o mais fraco, o rico ao pobre, o saudável ao doente e assim por diante.

O mundo continua a mudar e cada vez mais rápido com o advento da tecnologia e sua mais recente maravilha, a Internet. É inegável o peso que ela teve nas últimas eleições norte-americanas onde finalmente conseguiram eleger alguém que pensa mais no bem estar geral do que em seus interesses econômicos pessoais e tacadas de golfe. Gostei também de ver a CNN ensinando como ultrapassar o sistema de bloqueio e vigilância nacional para que as pessoas pudessem contar para o mundo via Internet sobre o que estava acontecendo no Irã, já que todos jornalistas estrangeiros foram retirados do país. Espero que cada vez mais pessoas possam fazer uso da tecnologia para dizer ao mundo que a Sra Mugabe acaba de gastar 10.000 dólares em uma bolsa em Paris enquanto seu país morre de fome, ou como o filho de Fidel vive uma realidade bem diferente dos restantes dos Cubanos. Mas principalmente quero ver a arma da Internet funcionando no meu país para banir definitivamente os Sarneys do seu MAR(anhão) de miséria, os Malufs e suas contas na Suíça, os donos de castelos, os senadores e seus atos secretos, os políticos que além de ganhar bem, trabalhar menos e contar com auxílio até para comprar terno Armani, ainda desviam dinheiro de merenda escolar, ambulâncias, estradas, universidades e sei lá mais o quê.

Porquê tanta opulência? Para quê tanto dinheiro? Não acham injusto um clube pagar 90 Milhões de Dólares por um jogador? Porque será que alguém que já tem mais de 500 milhões de dólares quer outros 10? Porque ficamos tão obcecados com os bens materiais? Carros, barcos, jóias, roupas de griffe, para quê tudo isso? Às vezes sinto vontade de fazer como Alexander Supertramp e desaparecer na natureza selvagem (Into The Wild). Definitivamente o mundo ainda tem muito que melhorar, precisamos de muitos Obamas na liderança de seus respetivos países, precisamos de muitos Obamas dentro de cada um de nós, vamos começar pela nossa família, nosso bairro, nosso trabalho e assim por diante. Vamos virar mais espirituais e menos materialistas. Namastê!"


Crianças na vila do Lucapa - Angola