Meu rolê pelo mundo


Visualizar Hacia todas partes voy em um mapa maior

Sábado, Agosto 05, 2006

Primeira noite na África - Novembro de 2004

Máquina do tempo. Em novembro de 2004, com um mês de experiência no laboratório de análises visuais da empresa que eu trabalho eu e a então gerente do laboratório viajamos para África do Sul para participar da reunião anual dos laboratórios do grupo. Minha excitação contrastava com a dela. - Essas viagens são um saco! - Ahh, eu tô adorando. É a primeira vez que eu vou para África! Disse eu. Chegamos na sexta-feira em Joanesburgo porém a reunião só começaria no domingo no parque nacional de Pilanesburg. Iríamos de Van ao meio dia do dia seguinte para lá, junto com outras 6 ou 7 pessoas da empresa. Almoçamos no hotel e passei a tarde no meu quarto tentanto descansar um pouco, revisando minha apresentação, lendo emails, etc. De noite saímos para jantar com colegas de outros labs que lá estavam com o mesmo propósito. O restaurante era desses para Inglês ver, eu então que não sou Inglês, fiquei maravilhado. Quatro andares, comida africana, música africana e um showzinho na mesa a cada meia hora: primeiro duas mulheres que pintam o rosto de todos como o de uma tribo africana, depois outra que vem e conta e canta uma lenda africana, logo uma que lê as nossas mãos e por último três rapazes tocando instrumentos típicos. Entre as outras 5 pessoas sentadas na mesa, eu só conhecia a gerente do Brasil. Mas o papo foi bom, principalmente regado a vinho. Tomamos 3 garrafas de tinto entre os 3 que com esta bebida se embriagavam, ou seja uma de tinto per cápita! Cheguei no quarto do hotel e escrevi este texto que por aí andava engavetado. Aqui o publico da maneira mais fiel possível, só arrumei a pontuação e os milhares de erros de digitação. Uma de tinto per capita, não se esqueçam!

------X----X------

Meia noite e meia, fim de balada em JNB! Quem falou que o Aparthaide acabou em 1994? Um dia em JNB foi suficiente para ver que a realidade é muito diferente. Desde que subi no vôo da South African Airlines, as 18:30 de ontem eu não vi um só branco me atendendo! Aeromoças (e moços), taxistas, carregadores de malas, recepciontistas de hoteis, cozinheiros, arrumadores de hoteis, todos sem exceção, são negros! Pelo que sabemos a maioria da população na AS (África do Sul) é composta de negros, bom, até as 17 horas eu tinha achado que era uma simples questão de estatistica, se a maioria é negro, não é dificil encontrar que a maioria das pessoas que trabalham nesses postos sejam negros. Mas quando saimos na balada e ví mais de 50 mesas cheias de brancos, sendo atendidos por negros, já começei a duvidar que era uma simples questão de estatística. Como pode a diferença ser tão grande? Em 50 mesas ví um ou dois negros sentados e mais de 20 servindo. Aí meu amigo, já não tem estatistica que possa ser mencionada, é simplesmente repugnante! Sentia vontade de gritar, de fazer alguma coisa, de dizer algo, de apoiar alguem! E vamos noite adentro, começa a uma banda a tocar uma música ao vivo, de longe escuto um swing gostoso, vou checar e comprovo o que já supeitava, só de negros, ritmo perfeito, excelente percursão. Todos dançam como deuses e na platéia unicamente uma loira desajeitada, cara de alemã, sei lá. Eu senti o ritmo e o vinho na cabeça, me identifiquei com as raízes a cai no baile na pista deserta com a alemã desajeitada. Sabe essa coisa de ir em Show e ficar lá no fundo vendo a banda tocar? Não é comigo meu amigo, eu gosto é de curtir lá na frente. Naturalmente algumas músicas depois a pista estava cheia, porque a banda era muito boa e os caras mandavam muito bem. Mas 90% da pessoas dançando eram mulheres! Sei lá, para mim, eles devem achar que dançar é coisa de mulher! A minha conclusão já estava tirada, na África do Sul ainda existe muito racismo e os homens não levam o menor jeito para a dança! E quem acha que 10 minutos depois a pista estava cheia de carcarás caindo encima das presas está equivocado, a estatística permaceu igual, 90 % de mulheres e de vez em quando um ou outro casal se junta a galera! Bom, também sei que na Africa do Sul não rola essa de chegar e ficar como rola no BR. Talvez por isso os caras nem foram a pista perder seu tempo! Sei lá, coisa se South African people. O caso é que a banda era muito boa, a galera animada e o cenário continuava igual, de 90% de mulheres que estavam dançando 10% trabalhavam no bar, que entre um pedido e outro e aproveitando que o bar se esvaziava davam seus passos e gritos com a galera, elas eram a alma da pista! Já de volta a mesa quando a nossa garçonete negra (muito gentil como a regra manda) nos ofereceu um papel para colocar sugestões ou comentários, não me saiu nada diferente do que uma frase do Bob: “Get up, stand up. Fight for your rights”. Posso ser um sonhador mas depois do que vi aqui acho que no Brasil as oportunidades, se não justas, são pelo menos um pouco mais distribuídas. África do Sul, 1 da manhã e eu aqui viajando neste quarto de hotel, fim de balada não sei como. Me apaixonei por cada pessoa negra que vi esta noite! ‘Hori!

---------X------X--------

Nosaaaaaa! O que uma garrafa de vinho não faz! Que grau, ha ha ha ha. Mas a estória não acaba aí, acordei as 6 da manhã de roupa e calçado com o maior sol na cara. Tomei acho que meio litro de água, me despi, acertei despertador para as 9:30 (café da manhã acabava as 10, óbvio) e fechei aquela cortina que não deixa passar luz, o tal do blackout. De tão escuro que o quarto ficou, até parecia que o sol tinha ficado com dó de mim e decidido recuar um pouco. Acordei com a minha colega ao telefone, “Oi Ram, você não vai descer?”, eu “Ahhhh, ehhhh, oi, obrigado, eu perdi o café da manhã?”, “O café? Meu filho são meio dia e dez minutos! Tá todo mundo na Van!”. Car#$&#! dei um pulo da cama e analisei a situação. Tô fudido! O computador e seus trecos fora da mala, a roupa espalhada, as apresentações. E agora? Eu vou falar que eu vou depois! Com quem mané? Agiliza meu irmão! Pois virei um raio, arrumei tudo e o máximo que sobrou para mim foi uma água na cara, escovar os dentes, jogar um boné e os óculos escuros para esconder um pouco a cara de ressaca. O meu raio estava um pouco desenergizado, foram 20 minutos, claro, tamanha bagunça. Entrei na van morrendo de vergonha, hello, hi, nice to meet you, e até consegui ouvir um coroa lá no meio reclamando. Com razão ele. Tinha lugar para mim lá no fundão, parecia guardado. Alcancei meu lugar, baixei o boné no rosto, liguei o Bob no ouvido, “get up, stand up...” e capotei pensando que se fosse um colega meu eu teria ligado 10 minutos antes e não 10 depois.

3 comentários:

deaconti disse...

Só tenho uma coisa a dizer: valeu!!! Valeu a pena investir nesse blog para você, como valeu dar uma pressionadinha. Adorei a narrativa.

beijos saudosos, querido Hori

Cláudia disse...

Fiquei imaginando cena a cena, cada movimento a cores. Até cheguei a ouvir o Car#$&#!
Cara, que inveja boa de você. Que vontade de partir para um "bem longe" que nem o seu! De sentir essa segregação bem de perto e ter mais força para lutar a favor. A favor da PAZ.
"Positive Vibration"!
Cau.

Cesare Gialdo disse...

Horizonte. Estou louco procurando o teu ultimo mail de 6 meses atras. Me mande novamente o seu e-mail que quero me comunicar. Abraços, Cesare Giraldo

cesaregiraldo@yahoo.com.br

Sao Paulo, 30 jan. 2007