Meu rolê pelo mundo


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Domingo, Janeiro 25, 2009

Diários de Campo, Venezuela. Parte 1 de 2

Caros leitores e amigos,

Aqui estou de volta ao trabalho em Angola e a esta minha janela sobre o mar. Desfrutei de umas revigorantes e agitadas férias como de costume, estive um pouco com minha família em Ribeirão Preto e depois estive passeando com a minha namorada pela África. Novas culturas, novos amigos, novas paisagens e novas estórias que irei compartilhar em breve. Enquanto preparo o novo material queria dividir com vocês este meu diário de campo de 2003. Devido a extensão do texto decidi dividir o mesmo em 2 partes. Agradeço muito especialmente a
Malaika pela digitação do calhamaço que se encontrava engavetado há anos. Por último desejo um ótimo ano a todos, especialmente aos meus sobrinhos: os que acabaram de chegar, os que por aí vêm a caminho, e à aqueles que o tio não vê a algum tempo mas estão aqui sempre no meu coração.


Domingo, 17 de Agosto de 2003

Hoje eu nasci de novo! Só assim posso começar a escrever sobre esta minha aventura com prospecção de diamantes aqui na Venezuela.

O fato de ver a morte a passar ao meu lado, mais especificamente no formato de um pesado tronco de árvore que caiu e passou zumbindo ao lado da minha orelha, me fez pensar em muitas coisas na vida. Coisas que já vivi, as que ainda quero viver, pessoas com quem quero compartilhar minha vida, enfim, me fez refletir sobre o risco desta profissão, sobre este lugar e pensar se realmente vale a pena tanto sacrifício.

Se aquele pesado tronco cai 30 cm mais para cá, ou a se a minha cabeça estivesse um pouco mais para lá, com certeza eu não estaria aqui escrevendo isto. O temor de ir embora deste mundo e não poder dizer à minha mãe, meu irmão e minha mulher quanto eu os amo me fez prometer que esta noite eu começaria um diário por se alguma coisa me acontece daqui para frente. Espero que jamais me venha a suceder algo, mas em todo o caso digo a vocês três que os amo muito, que são as três pessoas mais importantes na minha vida e que tudo que eu desejo é que sejam felizes e continuem vivendo a vida intensamente, como se cada dia fosse o último dia de nossas vidas.

Que coisas as que estou escrevendo né? Acho que dá para se ter uma idéia do tamanho susto que passei hoje.

O que eu queria mesmo era desabafar escrevendo aqui neste pedaço de papel e isso que nem comecei a descrever a minha aventura.

Tudo começou no primeiro dia do mês de Agosto de 2003. Eu estava ansioso e animado porque iria voar pela primeira vez de helicóptero e conhecer de perto a selva Amazônica da Venezuela. Sou o geólogo responsável por duas equipes de prospecção que deverão subir o Rio Cuchivero realizando amostragem aluvionar e verificando umas anomalias geofísicas interessantes. Uma equipe deve ir por terra e a outra pelo rio em uma lancha com um pequeno motor.


Saida do ponto de apoio. Até aqui chegava o asfalto, e partimos no helicóptero. Nota-se que o rio está bem cheio.

O começo foi um desastre. A falta de mapas precisos da região, combinado com a pressão por pousar rápido devido à grande distância de vôo para se chegar no limite da savana com a floresta amazônica, nos fez aterrizar em um afluente do Rio Cuchivero. Nosso primeiro erro. Depois, ao tentar chegar novamente no rio correto fomos cair em outro afluente, só que desta vez 10 Km distantes do nosso objetivo inicial, e não 1,5 Km como da primeira tentativa. Impressionante como 30 segundos de vôo te levam tão longe quando se está no ar. Toda essa operação que ía dando errado, aumentava consideravelmente o custo devido ao tempo de vôo do helicóptero. Cada nova tentativa implicava regressar mais uma hora de vôo para reabastecer e tentar novamente achar o local correto de aterrizagem entre aquelas montanhas e inúmeros afluentes que até pareciam o rio principal. Eu estava num nervo só.


Nessas todas tentativas o dia ia avançado e como o lugar era bom decidimos acampar nesse segundo ponto e procurar o rio principal no dia seguinte. Logo cedo pela manhã o helicóptero chegou com mais carga e combustível e estávamos todos prontos para uma última série de viagens até o rio certo. Eu estava no telefone satélite conversando com o meu chefe que se encontrava em Ciudad Bolivar coordenando toda a operação quando comecei a avistar uns índios aproximando-se. Lembro-me de ter dito algo assim como: “Adjair, estão vindo uns índios aí, são uns 5, não peraí, uns 10... caramba, são muitos e estão todos armados, te ligo depois”. Eram aproximadamente uns 40 índios armados até os dentes com lanças, facas e escopetas, isso mesmo, índio do século XXI tem escopeta, e nos rodearam rapidamente. Esse foi meu primeiro contato com um índio em seu território, com sua indumentária original e em formação de caça onde claramente éramos a presa no meio do círculo.

Caramba e agora? Não tínhamos feito nenhum plano caso isso acontecesse, eu não sabia se os índios eram agressivos, nós estávamos no lugar errado e seguramente o barulho de helicóptero os atraiu para o local. Quando chamaram pelo responsável eu me senti como naquele desenho animado do cachorro na legião estrangeira, quando pedem um voluntário e todo mundo dá um passo para atrás, e lá fiquei eu no meio da roda. Eu não sabia exatamente o que dizer mas óbviamente não mencionei nem uma palavra sobre achar uma mina de diamantes. As desculpas sobre o pouso equivocado não foram suficientes para partir em paz e minha presença foi exigida diante do cacique. Passado o susto já estava eu excitado com a idéia de visitar a tribo indígena e fazer as melhores fotos da minha vida. Fotos? Nem sonhando, eles foram bem claros e para bom entendedor um simples gesto bastou.

Primeiro acampamento. No limite entre a Savana e a Floresta.

Acontece que para chegar na tribo eram necessárias umas três horas de caminhada (a passo de índio!), motivo óbvio pelo qual decidimos ir de helicóptero. Mas para ir de helicóptero tínhamos que voltar uma vez mais ao ponto de apoio para abastecer, e então lá fui eu de novo dar uma volta no “pássaro de ferro” que as estas alturas eu já não achava graça nenhuma e descobri que dá um enjôo danado (ou será que foi só eu?). Nessa confusão toda empreendemos viagem só que eu acabei esquecendo de telefonar para o Adjair para dizer o que tinha sido acordado. Já devem imaginar o alívio que ele sentiu ao ouvir a minha voz novamente mais ou menos 1 hora e meia depois da nossa última conversa.

Uma hora depois voltamos ao ponto correto de aterrizagem, deixamos combustível para fazer as transferências e voamos para ir falar com o Capitão José, o cacique dos índios.

A aldeia era imensa, moravam lá mais de 300 índios, aparentemente de 2 tribos diferentes. Foi grato encontrar uma equipe de médicos universitários venezuelanos fazendo um trabalho de prevenção de doenças endêmicas e duas freiras, uma delas colombiana que ficou encantada ao me escutar falando espanhol com o sotaque da sua terra, para onde não ía a uns 20 anos. Todos ajudaram a quebrar o gelo com os índios e depois da minha conversa com o capitão José a nossa permissão tinha sido concedida. Nós tínhamos permissão do governo da Venezuela para realizar o trabalho e além das nossas amostras estávamos recolhendo dados para o instituto geológico do país, já que estávamos entrando em terra incógnita. Por fim voamos para o famoso Rio Cuchivero e montamos o nosso acampamento no final da Gran Savana Venezuelana. A aventura estava só começando, já era 3 de Agosto, e meus dias de roupa seca se aproximavam do seu final.

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2003

Quando me disseram que iria passar vários dias no mato, logo pensei na tradicional barraca com saco de dormir e o isolante, isso tudo deve pesar uns 6 Kg e ocupa um espaço razoável dentro da mochila. Porém algo me disse que eu deveria experimentar o esquema que o pessoal já usa a tanto tempo em diversas campanhas na região amazônica brasileira, mesmo achando que não iria conseguir dormir na rede por diversos dias consecutivos.

Com o tempo descobri não só ser mais vantajoso o esquema do pessoal com a rede e mosquiteiro, como impossível montar uma barraca por onde andamos devido ao terreno acidentado e quase sempre molhado e com pedras. O peso da rede e o mosquiteiro não deve chegar a 0,5 Kg mais a lona que deve pesar uns 2 Kg, é um esquema leve e que não ocupa quase nada de espaço. Porém montar a rede todos os dias é um pé no saco. Basicamente trata-se de arranjar um modo de apoiar uma vara central na qual se pendura a rede e sobre a qual a lona é colocada. Para apoiar essa vara central vale achar uma bifurcação numa árvore, ou o que é mais comum, fazer um apoio com quatro forquilhas, ou menos, dependendo se se arranjam outras árvores para servir de apoio para as forquilhas.

Agora imagine andar o dia todo com um mochilão nas costas depois de ter tomado chuva por um bom tempo, ter enfiado o pé no barro, descido e subido morros, atravessado rios e ao chegar no local do acampamento ter que montar o seu próprio barraco. Que sacrifício! Nessas horas eu mal tenho forças para levantar o facão! Ainda tem que se procurar as árvores certas, cortar e carregar tudo até o ponto onde se vai armar, que além de difícil de achar, deve ser limpo. Era realmente uma rotina chata. Normalmente eu estava terminando de montar o meu acampamento quando os peões já estavam deitados nas suas redes de banho tomado. Neste ponto tenho que agradecer imensamente ao meu colega brasileiro e chefe de uma das equipes, o Miguel Teixeira, que sempre, sem exceção de nenhum dia, vem me dar um força com o meu barraco. Ele já montou o dele próprio e vem me ajudar com o mais difícil que é achar, cortar, carregar e montar o varão principal. Às vezes ele me ajuda até a montar uma prateleira para colocar as coisas.


Meu primeiro barraco. Aqui ainda estávamos na Savana.

O Miguel é um dos brasileiros comigo, o outro é o Daniel Cirilo Borges, esse faz até banco no seu barraco, lugar no qual eu estou sempre jantando. Mais tarde falo um pouco mais dos dois e do resto da nossa equipe que ao total são 11 pessoas comigo, 3 brasucas e 8 venezuelanos.

Agora eu vou descrever a rotina de um dia normal por aqui. Acordamos em torno das 6:30 da manhã. O cozinheiro já preparou o café da manhã, deve ter feito uma das três opções: Arepa frita, que é tipo uma tortilha de milho e come-se muito na Colômbia e Venezuela; às vezes tem algo que eles chamam de domplim, também é frito, e é como um bolinho de chuva mas do tamanho de um sapo; ou temos as panquecas, tudo isso puro, sem nada de recheio ou para untar. Para beber pode ser achocolatado, aveia, café com leite ou natilha, que também é comum na Colômbia mas eu jamais pensei que pudesse ser bebida, é algo como um mingau de maizena. Assim que terminamos o café nós servimos o almoço que vamos comer mais tarde, o “bandeco” na gíria brasileira, a marmita ou a famosa bóia fria. Os dois cozinheiros Wilmer e Mael se levantam às 4:00 da manhã para ter tudo isso pronto para as 7:30 no máximo. Ahhh, lição importante antes de armar o seu barraco, espere os cozinheiros escolherem o lugar onde eles vão montar a cozinha e fique bem longe dela, caso contrário será acordado bem cedo.

Depois do “des jejum” e o bandeco servido vem a terrível tarefa de vestir a roupa de campo, tarefa essa que às vezes é realizada antes das anteriores. Terrível pelo fato de 95% das vezes a roupa estar toda molhada, e quando digo toda me refiro a todas as peças:, a cueca, as meias, a calça, a camiseta e a bota, além de suja, muitas vezes imunda. Alem de molhada a roupa está fria por causa do frio da madrugada. Ninguém vai usar uma roupa seca porque sabe que vai estar molhada logo logo.

Após vestidos é hora de desmontar o barraco e fazer com que todas as coisas caibam dentro da mochila da melhor forma possível. Nela eu carrego a minha roupa, a rede, a lona, papeis (mapas, artigos, bloco de anotações, caderneta de campo, autorizações e documentos dos motores), dois livros, lanterna, cantil, remédios, objetos pessoais, o magnetômetro portátil, minha máquina fotográfica e o telefone satélite com duas baterias extra. Como podem imaginar é um peso considerável, fora isso algumas vezes ajudo a carregar uns 4 a 5 Kg de comida, mas só quando é realmente indispensável, dessas vezes que a gente vê os peões fazendo um esforço sobre-humano em prol do trabalho coletivo e não tem como você não se esforçar um pouco mais.

Há vezes que não precisamos desmontar o acampamento no dia seguinte, ficamos dois ou três dias em um mesmo ponto realizando campanhas de amostragem durante o dia na região.

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2003

Bom, depois de desmontado o acampamento saímos caminhando em fila indiana, seguindo alguém que vai na frente com um GPS ou bússola e abrindo caminho no rumo que nos interessa. Nosso objetivo é verificar algumas zonas anômalas que foram identificadas com um sobrevôo geofísico que capta a diferença de magnetismo das diferentes rochas da terra. Os kimberlitos, ou rocha mãe dos diamantes, são precisamente mais magnéticos que as outras rochas, por isso nosso objetivo é verificar essas anomalias magnéticas, que podem, ou não ser rochas kimberlíticas e portanto, podem, ou não ser portadoras de diamantes. Além disso, vamos rumo às cabeceiras do Rio Cuchivero recolhendo amostras aluvionares. A marcha quase sempre é por caminhos nunca antes percorridos, ou seja, vamos abrindo picada, o que resulta em muitos cipós te prendendo os pés, muitos galhos para se abaixar, desviar, pular enfim, cansativo. Em certo período da nossa campanha estava chovendo todos os dias, nesses momentos não se pode fazer nada diferente a seguir caminhando. Capa de chuva? Nem pensar! Ficaria toda rasgada. E o pior é que com a chuva o peso da mochila só vai aumentando. Temos que subir e descer muitos morros, que às vezes são tão inclinados que a gente sobe escalando ou gateando. Agora imagine um morro desses e uma tremenda chuva? É um sabão! O espetáculo não é nada divertido.

No caminho passamos muitos rios, alguns pequenos em que só molhamos as botas, outros maiores que nos molhamos até os joelhos ou cintura ou que geralmente construímos pontes. Essas pontes não são nada mais do que um único galho para equilibrar-se e tratar de não molhar as botas, porém se se escorrega se molha muito mais do que se molharia se atravessasse o rio por dentro. Esses são no mínimo uns 5 por dia.

Tem também os rios que são tão grandes que não temos outra opção a não ser nadar. Para isso eles têm um esquema que funciona com perfeição, como eu mesmo pude comprovar. Trata-se de pegar a lona de cobrir a rede e fazer uma trouxa com ela, jogando tudo que você tem dentro. Pode-se pôr a mochila com toda a carga, a roupa que a gente leva no corpo, as perneiras, as botas e até um pouco mais. Depois é só dar um nó bem dado na parte de cima, prender uma corda para segurar a trouxa e se mandar para a água. O negócio flutua de uma tal maneira que você pode se apoiar nele que não afunda. Parece fácil, certo? Nem um pouco! A tortura começa quando você tira a roupa e os insetos parecem te comer vivo. Nunca senti tanta picada ao mesmo tempo, mal conseguia continuar arrancando o resto da roupa de tanto que eu me coçava. Ainda bem que o prestativo Miguel estava lá para me ajudar a montar a minha trouxa, porque eu não conseguia fazer outra coisa a não ser me coçar e matar mosquitos. Depois disso é se lançar na água e segurar com força para sua carga não ser levada pela correnteza do rio, e claro, tem que nadar meu amigo, senão você vai parar longe do ponto de saída, tamanha é a força da correnteza.


Um dos problemas é que não tínhamos salva-vidas, motivo que dificultava bastante nossa travessia. Os salva vidas estavam a uns 10 Km para atrás, no lugar onde decidimos abandonar a lancha, devido a algumas longas corredeiras que faziam o rio completamente não navegável. Depois de passar o rio a tortura dos insetos voltava, eram tantas picadas que eu não conseguia desamarrar minha trouxa para pegar minha molhada roupa, esse dia tinha chovido para não perder o costume. O Miguel estava lá de novo com um repelente que foi um tremendo alívio.

Continuando com um dia normal, às 12 mais ou menos atacamos o nosso bandeco que cada um já vem carregando desde de manhã. É bóia fria mesmo acompanhada de suco de saquinho nos primeiros dias e água de bica quando os saquinhos acabam.


E sobe morro e pega amostra.... ia ia ôôô

Normalmente vemos cobras, aranhas gigantes e às vezes umas antigas cabanas de índios. São locais que eles construíram na época seca enquanto fazem grandes excursões pelo seu território desbravando, caçando e seguramente passando conhecimento para os mais novos. Nesta época de chuva, só branco doido mesmo andando por estas terras. A propósito se não fosse pelos índios não estaríamos tão rapidamente aqui onde nos encontramos. Isso porque sempre que podemos avançamos rio acima seguindo caminhos de índios. Eles devem usar estes unicamente na estação seca e para nós estão sendo de imensa utilidade. É incrível ver como eles andam todo este imenso território. Eles devem fazer grandes excursões rio acima, com o objetivo de demarcar e conhecer seu território. Estamos a mais de 15 Km da aldeia do cacique José e ainda temos picadas deles por todos lados, assim como cabanas que eles devem usar como paradas. Eles devem fazer a mesma coisa que nós estamos fazendo: descobrindo, desbravando e desfrutando, devem ser grandes campanhas de caça e reconhecimento.

Quinta-feira, 21 de Agosto de 2003

Depois do bandeco, 5 minutos de descanso e continuamos caminhando e tomando mais chuva. Mais ou menos às 2 da tarde é hora de começar a procurar um lugar ideal para acampar. Sem dúvida alguma deve ser próximo ao rio e de preferência num sítio plano mas não muito baixo para evitar inundações de surpresa.

Quando achamos a área, é hora de cada um encontrar o seu próprio canto para montar o barraco e começar aquele procedimento de limpar, achar a madeira, cortar, transportar, montar, esticar a lona, pendurar a rede e por último tomar um banho e vestir a roupa seca.

Nessa hora, que para mim é sempre perto das 6 da tarde, mesmo com ajuda do Miguel, meus pés são uma verdadeira uva passa já que entraram às 7 da manhã em umas meias e botas molhadas e enfrentaram o dia todo de caminhada, chuvas e rios. Seca-los bem é fundamental e requer um pouco de paciência, tamanha a umidade local.

É hora de tomar um café quentinho e esperar a janta. Esses foram sem dúvida os melhores cafézinhos da minha vida! Se esses dias de traslado são difíceis para mim, imagine para os cozinheiros que acordam às 4 da manhã para fazer o bandeco e café da manhã. Assim que paramos têm que arrumar um lugar para a cozinha, procurar lenha (para hoje e para a manhã do dia seguinte) montar o cafézinho e depois começar a preparar a janta, para finalmente montar seu barraco, e depois voltar a agilizar a comida para o dia seguinte.

É claro que existe consideração e os que acabam primeiro sempre ajudam a montar o barraco dos cozinheiros. Mas de todas as formas são os últimos a ir tomar banho e relaxar.

Para jantar também não temos muitas opções, básicamente temos arroz, macarrão, carne enlatada, feijão e verduras (nos primeiros 8 a 10 dias) que são combinados de diversas formas para variar o menu, mas que ao final de contas acaba sendo sempre repetitivo. Um dia a carne é frita, no outro guisada, no outro com arroz e assim por diante com todas as opções.

Não posso esquecer de mencionar os milagrosos peixes que o Miguel andou pescando para variar nosso cardápio. No total foram uns 4 dias que ele conseguiu pescar, sendo que um dia desses ele pegou um bagre de uns 20 Kg que durou 3 dias. Desafortunadamente a pescaria se reduziu à medida que subimos o rio e deixamos para trás grandes cachoeiras que impedem a subida dos peixes grandes. Hoje em dia só se pescam lambaris, um tipo de peixe bem pequeno, que se come inteiro, é só fritar e mandar ver. Mesmo estes têm sido muito apreciados devido à falta de carne e enlatados (que em parte ficaram lá na lancha). O pescador agora é um dos nossos cozinheiros, o Wilmer Rojas, que está provisoriamente no cargo do colega Alvarado, que voltou no segundo dia com forte diarréia e vômito. Ainda bem que ele ficou doente quando ainda estávamos fazendo o traslado, caso contrário ía passar uns maus dias no campo até melhorar ou voltar de helicóptero em caráter de emergência. Isso me lembra do galho que quase me matou. Só por curiosidade informo que a abertura de um local para o helicóptero pousar, com uma moto serra e 5 a 7 homens trabalhando demora praticamente um dia todo! Lembrem-se que estamos na floresta amazônica e a savana só vimos no primeiro dia. Daqui para frente se quisermos que o helicóptero pouse temos que abrir uma clareira na mata para isso.

Neste aspecto a sorte tem estado do nosso lado porque a um funcionário, o Cuto, uma cobra picou bem no limite superior da sua perneira, 1 cm a mais e estaríamos em problemas que não quero nem imaginar. Dizem que a cobra era venenosa, quem vinha atrás conseguiu matar a bicha antes dela dar o segundo bote, era o Nestor Lopes o nome do herói da vez.

Continua....

Yo, geólogo

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