Meu rolê pelo mundo


Visualizar Hacia todas partes voy em um mapa maior

Domingo, Fevereiro 08, 2009

Diários de Campo, Venezuela. Parte 2, final.

Para ler a parte a parte 1, clique aqui.
Quarta-feira, 27 de Agosto de 2003

Até agora nada foi mais frustrante nesta campanha do que ver o helicóptero rodear as nossas cabeças com mantimentos e ir embora sem pousar. Estávamos a alguns dias sem carne, sem enlatados e sem outras coisas básicas. A refeição era a mesma a uns três dias: macarrão (sem molho nem nada), feijão (sem alho, nem cebola ou qualquer outro tempero) e arroz (só com sal e óleo).

A situação ficou tensa, conversei com meu chefe e ele me disse que o helicóptero voltaria no dia seguinte a primeira hora, e que o piloto tinha reclamado do tamanho da clareira e tínhamos que dar um jeito de abrir um pouco mais. Para nós aquela estava de bom tamanho e enviamos a moto serra por terra para o próximo acampamento. A solução foi baixar as árvores no facão.

Impressionante o que 5 pessoas com facão e fome são capazes de fazer, agora podíamos ver que haviam claramente duas árvores que estavam atrapalhando a nossa clareira, uma era simples, um açaí bem comprido que se colocava bem no caminho de aproximação do helicóptero, parecia longe, mas interferiu. A outra sim foi bem complicada, era uma árvore grande e grossa que as raízes começam a se espalhar antes mesmo de chegar no solo. Essa deu trabalho, suor e bolhas, mas conseguimos. No domingo o helicóptero voltou. Que felicidade com tão pouca coisa. Frutas, verduras, doces e 2 pequenos rádios foram as encomendas mais apreciadas. Eu não perdi a oportunidade para diminuir o meu peso, mandei os livros que já li e a minha máquina fotográfica com a teleobjetiva, aqui a chuva e umidade são tantas que eu temo que a mesma se danifique. Não é uma decisão fácil mas o alívio do peso e não estragá-la não me deixaram arrependido.




E não é que o Miguel conseguiu tirar uma foto escondida dos índios? Alí no meio estamos o Daniel e eu negociando. Sei que não é uma boa foto mas serve como registro do momento.


Aos trancos e barrancos vamos avançando na nossa campanha, com alguns erros e algumas jogadas de azar além de um mapa que não nos fornece informações precisas.

Já começamos a chegar às famosas anomalias. Foram feitas 2 de 4, sendo a última mais distante de todas e que deve consumir pelo menos uma semana de trabalho.

A primeira deu um contundente resultado negativo. A segunda, verificada hoje, também deu negativo porém foi mais animadora. O ponto negativo do dia foi o meu mau humor. Parece que cheguei no meu limite, não sei se o fato de estar chovendo demais ou o tempo que estou no mato já está me agonizando. Cheguei até a pensar várias vezes se tanto sacrifício vale a pena. Trabalhar com prospecção, longe de casa em um acampamento na Bahia é uma coisa. Agora, trabalhar no meio do mato, tomando chuva, vestindo roupas molhadas, só andando a pé, comendo mal, tendo que lavar roupa todo dia, enfiando o pé na lama de noite, sem ter notícias da sua casa e de quem te ama, sem ver um jornal, sem ver pessoas diferentes, sem dormir em uma cama de verdade todos os dias e sem muitos outros prazeres simples da vida, é demais.

E pensar que só se passou um mês! Como explicar para o meu amor que é difícil fazer um telefone via satélite pegar no meio desta grande floresta? Como fazer para pelo menos poder falar 5 minutos com ela sem que desapareça a porra do sinal? Que merda! Definitivamente se isto aqui se tornarem os trabalhos rotineiros da minha vida como prospector, então terei que mudar de carreira. Bom, talvez tanta chuva no miolo que peguei o dia de hoje me fez ficar meio em pane. Mas sem dúvida é um trabalho bem difícil. Ou não? Bom posso estar exagerando, ao fim de contas ninguém pegou malária, hepatite ou leximaniose... ainda!


Por hoje chega, já desabafei, espero que este tempo melhore para melhorar também meu humor. Boa noite e bom sol amanhã!

Domingo, 31 de Agosto de 2003

Sunday? Ha ha ha! Me conte uma de português agora! Rainday, seria mais apropriado. Ou melhor rainy week (semana da chuva). Nunca vi tanta chuva na minha vida! Foi a semana inteira chovendo aos cântaros, parece uma cachoeira que vem do céu. Dia e noite, noite e dia sem parar. Não preciso nem dizer que o meu mau humor continua!

O saldo de tanta chuva é um funcionário com os pés em carne viva. Devido a um fungo (que também me pegou mais de leve) e outro com um dedo deslocado. Imagine subir um morro, carregando 20 Kg nas costas, depois de 3 a 4 dias chovendo, no meio da floresta Amazônica, onde o intemperismo é intenso e o solo se torna completamente argiloso devido à enorme taxa de decomposição/formação. É terrível, é um sabão e claro, você cai muito e as vezes se machuca. Devido a essa circunstância temos também 2 joelhos torcidos, Daniel e Cuto, e um dedo fraturado, também o pobre Cuto.

Este domingo passamos em uma ilha do Rio Cuchivero. Isso tem um lado bom e outro ruim. O bom é que voltamos a encontrar o rio principal que devemos amostrar. Parece ser navegável daqui pra cima e acho que vou pedir para o helicóptero trazer novamente a lancha. O ruim foi a péssima idéia de acampar em uma ilha em plena época chuvosa.

No começo parecia um bom acampamento: plano, seco, sem vestígios de subida de água (e como vínhamos de uma semana seguida chovendo, imaginamos que a ilha já estava a salvo). Ao nosso redor se notava que tudo estava alagado muito além do canal do rio. As árvores que pareciam distantes do canal tinham água nos troncos e seguindo o princípio de que a água já estava no máximo, acampamos no que parecia ser um dos melhores acampamentos até hoje. A propósito este é o nosso 14º acampamento em 31 dias.




Yo no campo, sem espelho e sem lâmina de barbear.



A primeira noite passamos sem problemas. No dia seguinte a chuva se fez presente como sempre e nos castigou durante o dia todo. Quando fomos dormir o rio já tinha começado a subir. Eu estava a uns 3 metros da margem da ilha e durante a noite escutei que a água se aproximava. Era 1:00 da manhã e ela já estava a 1 metro da minha rede. E a chuva sem parar. Uma coisa eu já tinha aprendido: nada fica no chão! Como isso já estava feito, enfiei meu facão no solo e nele atravessei a única coisa que ainda estava no chão e poderia ser levada pela chuva, os meus chinelos. Marquei um ponto de referência e voltei a dormir ao som de muita chuva. Quando acordei para dar uma revisada a água já estava em baixo da minha rede e continuava subindo. Por azar meu eu tinha pendurado a minha rede não muito alta e o medo de ser acordado com a água batendo na bunda me levou a molhar os pés e refazer os nós da rede um pouco mais curtos, o que me dava mais uns 30 cm de altura. O resto era deixar nas mãos de São Pedro e tentar dormir, saibamos que não corríamos perigo, o único problema era mesmo ficar molhado durante a noite.

Ao raiar do dia comprovei mais uma vez a eficácia do nosso esquema de acampar. A água tinha avançado 1 metro além da minha rede e por pouco não deixa a ilha toda em baixo de água. Mesmo assim as minhas coisas e eu estavamos completamente secos.

Que grande merda! A semana inteira calçando uma bota molhada e bem no domingo, dia de ficar de chinelo e tomar um sol no pé para tirar o lodo... chuá! A ilha inteira é um charco. Os lugares que não estão inundados, brotam água ao pisar. A cozinha foi tomada toda pela água. É claro que logo cedo não pulamos da rede, mais ainda ao ver o estado da cozinha e prever que o café da manhã iria demorar para sair.




Wilmer Rojas e a cozinha.


Ao ler isto vocês devem estar se perguntando: Mas porque eles acamparam na ilha? Bom, depois de 7 horas andando carregado a gente não tem muita paciência para procurar por muito tempo por um local perfeito. Naquela área todas as encostas que chegavam ao rio eram fortemente inclinadas e longas, ou seja, se quiséssemos acampar em um lugar razoavelmente plano ficaríamos a uns 40 metros distante da água. O que com essa inclinação e mais as chuvas tornaria a simples tarefa de pegar água e tomar banho um tanto complicada e arriscada. Imagine descer uma encosta molhada para pegar água às 5 da manhã! O risco de escorregar é grande e acabamos fazendo a escolha pela ilha. Na verdade não acho que seja uma ilha verdadeira, mas como o rio estava bem cheio aquela parte tinha ficado rodeada por água, porem uma árvore gigante já caída fazia de ponte perfeita para nós.

De todas as formas amanhã devemos mudar. Temos que escolher um lugar para abrir uma nova clareira para o helicóptero. Desta vez este vem para trazer mantimentos para outros 25 dias de mato e a lancha para continuar subindo o rio. Vamos ver se aprendemos a lição e fazemos esta clareira direitinho. Duas vezes o mesmo erro não é aceitável. Só espero que ele possa vir nesta semana, caso contrário vamos passar uns maus dias a partir de quinta-feira. Falta de comida!

Hoje acabou-se agosto, já foram 31 dias no mato e a contagem regressiva começou! Faltam 27 dias para sair daqui. Apesar do meu mal humor o dia de hoje teve seus bons momentos. O primeiro e mais importante foi que bati um recorde no telefone satélite, consegui falar por 11 incríveis minutos com a Flávia. A outra foi que meu chefe entendeu meus argumentos e decidimos cancelar a verificação daquela anomalia distante por estar completamente fora de rota.

Bom, agora só falta diminuir a chuva, esperar que dê tudo certo com o helicóptero e que o rio seja bem navegável daqui para cima. Sorte daqui para frente. Novo mês, novos ares!

Terça-feira, 2 de Setembro de 2003

Segundo dia do mês nove e começamos com o pé direito. A chuva deu uma certa trégua, agora só está chovendo de noite, e no que levo do mês não precisei colocar uma roupa molhada pela manhã. A melhoria no tempo nos fez adiar por dois dias a mudança de acampamento enquanto fazemos trabalhos de amostragem na região e abrimos a clareira para o helicóptero. Tarefa alias que dá um trabalho inimaginável. Quem pensa que é só ligar a moto serra e pronto está tremendamente equivocado. Tanto é duro que já levamos dois dias trabalhando nele e ainda não está pronto.

Hoje saiu uma equipe de 4 homens, liderados pelo Miguel, rio acima. O objetivo é ir amostrando um lado do rio e dividir o pessoal já que não podemos ir todos na lancha. Se tudo sair bem o helicóptero vem na sexta-feira e começamos a subir o rio para encontrar essa equipe rio acima em um ponto combinado, algo assim como onde o rio principal cruzar uma latitude combinada, já que não podemos confiar nos mapas que temos nos entregamos ao GPS. Assim que o helicóptero chegar tenho que mandar mais mantimentos por terra para o pessoal que subiu hoje. Dá para ver que nada pode sair errado desta vez, o helicóptero tem que pousar, e na primeira tentativa.

É muito mais fácil ficar em um acampamento fixo. Isso, somado a diminuição da chuva e de confirmar minha viagem para São Paulo me tem muito animado. Aqui ficamos até o domingo, pelo menos, e daí faltarão apenas 20 dias para ir embora. Desses 20, 2 devem ser para abertura do terceiro e último heliporto, e dos 18 que restam, 3 serão domingo. Ou seja, são só mais 15 dias de perrengue... UHU!!! Depois: namorar, família, amigos, cerveja, cinema, sorvete, TV, água quente, privada, civilização, poluição, ruído, gente, que bom, que bom, que maravilha!

Só para terminar o dia de hoje e como ainda não bateu o sono aqui na minha rede eu vou descrever meus dois colegas brasileiros nesta aventura. Um deles é o Miguel, tem 40 anos, mora em Goiânia, é assistente de prospecção, tem 15 anos de empresa e é um excelente trabalhador. Nunca vi alguém andar tão rápido no mato, que fôlego! O apelido dele por aqui é Niño Malo, algo assim como Garoto Mau, porque sempre quer avançar mais e nós todos já estamos reclamando de cansaço. Tem muita experiência com lancha na região Amazônica e adora pescar. O único problema é que por andar sempre na frente às vezes toma algumas decisões sem discutir com a gente. Qualidades são muitas, começando pela eficiência, gentileza, disposição para o trabalho e claro, ótimo pescador. O outro figura é o Daniel Cirilo Borges, 50 anos de idade, mora em Cachoeira no Rio Grande do Sul, casado, tem 3 filhos e trabalha na nossa empresa a 30 anos, a maioria deles na Amazônia e com lancha. Por ser o mais experiente sempre escutamos muito os seus conselhos e acaba nos guiando sempre para as decisões certas. Tem também uma grande disposição e força, ele é um touro. Por culpa de uma encosta molhada torceu seu joelho logo na primeira semana, mas se recusou a voltar no helicóptero. Isso o tem feito avançar um pouco mais devagar, mesmo assim sempre muito carregado e na maioria das vezes na frente de vários colegas. Adora futebol e seu time de coração é o Vasco da Gama. Carrega um radio de pilhas para todo o lado. Neste ele escuta seus jogos e todos nos mantemos informados das notícias do Brasil e do mundo. Tem uma grande habilidade para montar seu barraco e sempre faz um bom banco, no qual estamos sempre sentados os três ouvindo as notícias da voz do Brasil ou discutindo a programação do dia seguinte. É um tirador de sarro dos maiores, tá sempre brincando e me fazendo rir. Às vezes ficamos ao lado de sua rede, ele deitado, Miguel e eu sentados, ouvindo suas histórias dentro da empresa. Tem cada uma mais cabeluda que a outra, e o jeito dele contar é sempre muito engraçado. Cada coisa que ele já viveu nestes 30 anos! É outro excelente trabalhador e grande companheiro, estou muito feliz de ter conhecido esta figura e ter podido aprender muitas coisas com ele. Ao que parece está nos seus últimos dias na empresa, com processo de aposentadoria na fila de espera do INSS, que este ano parece ter ficado mais de greve que funcionando.



Daniel e Miguel retirando uma amostra no rio.


Hoje eu paro por aqui, ao som da chuva no meu barraco, logicamente. Só mais um dia São Pedro! Só mais um. Vai com calma esta noite.

Domingo, 7 de Setembro de 2003

Parece que minhas preces foram ouvidas. Setembro começou bem melhor que Agosto. Chovendo muito porém só fim de tarde e à noite. Isso, somado ao tempo em contagem regressiva que parece andar mais rápido, mais a segunda vinda do helicóptero que foi um sucesso me tem muito animado. Também trocamos de telefone satélite, porque aquele parecia estar cada dia pior, o novo prometia muito, mas hoje já me deixou na mão.



Helicópetero trazendo mantimentos.



Aproveitando a vinda do helicóptero eu voltei a subir no bicho para fazer um reconhecimento aéreo rio acima e voltei a ficar tonto, já tinha vontade de vomitar quando desci. Com o reconhecimento vimos que o rio é navegável e pedimos a lancha.

Agora estou aqui subindo o rio de lancha, junto com outros três funcionários, o Daniel entre eles enquanto o Miguel e outros 7 funcionários vão por terra.

Bom, vou parar por aqui aproveitando o sono que está batendo. Esse tem sido um dos problemas dos últimos dias, a falta de sono. Levamos tanto tempo de mato e dormindo cedo que começa a sobrar sono. Na noite anterior acordei às 3 da madrugada e não teve jeito de dormir de novo, a não ser, é claro, pouco antes da hora de levantar.

Quarta-feira, 10 de Setembro de 2003

Realmente as coisas mudaram neste mês! O meu mau humor foi-se embora e hoje em dia estou até trabalhando feliz e curtindo bastante. O motivo, simples, acho que desde o começo do mês não pego uma chuvona forte na cabeça. Desapareceram os morros, estamos com bastante comida, estou subindo o Rio só de lancha (que é uma delícia), estamos no rio certo, o trabalho começou a render bastante e por último e mais importante, o tempo está voando. Parece que quando estamos curtindo não sentimos o tempo passar. Volto a apreciar a beleza desta selva e seus animais, sinto-me um privilegiado ao estar andando por aqui, lugar onde tenho certeza que nenhum outro homem branco pós os pés antes.

Subir o Rio de lancha é tão bom quanto um passeio turístico. Vamos vendo tartarugas, araras vermelhas, antas e ao mesmo tempo tomando sol, coisa muito apreciada nesta floresta tão alta e fechada. Sem contar que não temos que caminhar e não corremos o risco das picadas de cobra (na média vemos uma cobra por dia). É claro que não é um passeio de luxo, mas os sacrifícios da lancha são facilmente superados. Um deles são as árvores caídas no canal do rio, isso implica agachar-se, passar por meio de um montão de galhos te arranhando e às vezes podem existir marimbondos nesses galhos, que atualmente representam o nosso único risco.

Outro sacrifício é quando temos cachoeiras ou corredeiras fortes. Hoje passamos por uma cachoeira de mais de 5 metros de altura, maravilhosa, falha não estar com a minha máquina. Como passamos a cachoeira? Por fora claro. Temos que descarregar a lancha, abrir um caminho por fora e passar tudo por terra, inclusive a lancha, seu motor, os 150 litros de gasolina, o pequeno gerador usado para recarregar o telefone satélite, a moto serra, enfim, várias viagens. Ainda bem que a equipe de terra já havia chegado e aberto o caminho para a lancha e nos ajudou a fazer a transposição das coisas. As duas equipes dormiram no mesmo acampamento, no dia seguinte eles se abasteceram de comida e saíram na frente novamente.

A equipe de terra também é muito beneficiada com a lancha porque não tem que carregar tanta comida nas costas e até coisas pessoais que estão sobrando a cada um vem para a lancha. Isso faz as caminhadas também avançarem mais depressa. Como eu disse, tudo saindo muito bem. Espero que essa onda positiva me acompanhe até o dia 25, porque assim vai chegar em um piscar de olhos.

Quinta-feira, 18 de Setembro de 2003

Pobre de mim tão inocente! Passeio turístico de lancha? Ha ha ha, parece uma brincadeira agora que vejo isso escrito. PQP, isso sim, vai tomá no... pois é, cheguei até a pensar que estaria melhor se eu estivesse na turma que está andando a pé!

Depois do dia que eu escrevi aquelas coisas sobre a lancha tudo começou a mudar. Ao regressar de uma expedição de dois dias para coletar umas amostras retomamos a subida no rio de lancha na quarta-feira, e descobri que o passeio não tem nada de turístico. A propósito dessa expedição por terra, acabamos encontrando índios no caminho, mas bastou dizer que eu tinha permissão do Cacique José para podermos continuar, ou seja, aquela bagunça do primeiro dia foi um errado que no final deu certo.

Voltando a subida do rio este continua bem caudaloso, porém a navegação era péssima devido aos galhos e troncos. Quando chegamos nas partes onde o rio não é encaixado no vale, ou seja, nas planícies, a coisas piora. É o dia inteiro batendo machado (claro, pedimos um depois daquele desastre com a primeira clareira) e facão para poder avançar no rio. O motor praticamente não funciona 3 minutos seguidos sem diminuir o ritmo. Se fosse só galho até ía, mas tem muitos formigueiros nesses galhos, que caem dentro da lancha, junto com aranhas e insetos, mais toda a vegetação e o pior, espinhos, te agarram e não soltam mais. A gente só deu sorte foi de não ter sido picado por abelhas e maribondos, os poucos que haviam no caminho os enxergamos a tempo e tomamos providencias como jogar um pouco de gasolina ou desviar quando possível.

Quando o rio está completamente desobstruído a lancha anda a uma velocidade de aproximadamente 10 Km por hora. No primeiro dia avançamos 4 Km em 6 horas! Para acabar de ajustar choveu o dia inteiro e você na lancha não se mexe muito, o que faz a gente morrer de frio, coisa que apesar de todas as chuvas que já tinha recebido eu nunca tinha sentido precisamente por estar sempre andando. Nesse dia o clima estava péssimo, o lancheiro (motorista da lancha) lá trás e o cara da frente, que vai cortando os galhos e abrindo caminho, não paravam de discutir e brigar. A coisa estava tão ruim que uma hora eu perdi o controle e acabei gritando com o lancheiro. Nesse momento eu estava congelando, com algo no olho me incomodando e enrosquei nos espinhos por estar com eles fechados, o lancheiro não parou o que fez com que os espinhos me machucasses ainda mais e eu estourei. Dia nervoso. Paramos tarde. Deveríamos ter encontrado a equipe de terra se tivéssemos avançado 8 Km, mas como eu já disse só fizemos 4. Isso foi na quarta. Na quinta não choveu, porém o rio piorou. Com muito sacrifício avançamos 3 Km em 6 horas! Tivemos que acampar sem encontrar a outra equipe.

Nesse momento eu começava a me preocupar com eles, se ainda teriam comida para mais um dia e que eles não tentassem voltar e nos perdêssemos uns dos outros. Nossa sorte foi que ao começar a navegar na sexta chegamos a uma cachoeira logo a uns 1.000 metros do ponto onde dormidos. Lá estavam eles conforme combinado, nos esperando assim que vissem uma cachoeira para decidir o que fazer.

A cachoeira na verdade era uma série de corredeiras de uns 150 m de extensão e deste ponto para cima o rio já não é mais navegável.

De todas as formas o tempo já não daria para ir muito longe, graças a Deus, já é quase hora de ir embora.

Decidimos então montar o nosso acampamento final e fazer o resto dos trabalhos a pé regressando para o mesmo ponto. Isso me tem muito feliz, faltam somente 6 dias e não vou precisar mais montar meu barraco de novo, que a propósito já consigo fazer sozinho só que ainda demoro umas duas horas na tarefa. Até hoje foram 22 acampamentos diferentes! Agora uma equipe vai as amostras e a outra fica abrindo o heliporto, eu fico, é claro.

Sexta-feira, 19 de Setembro de 2003

Minha única preocupação no momento é o danado do telefone satélite. A última vez que funcionou bem foi no domingo passado. Meu último contato com o escritório foi na sexta passada, última vez que eu passei as coordenadas da nossa posição.

Se eu não conseguir me comunicar novamente o helicóptero virá acompanhando o rio a partir dessas últimas coordenadas até achar a clareira. Não é uma tarefa fácil porque o rio é bastante sinuoso e dependemos de uma boa visibilidade mas é a nossa única opção. Se o helicóptero não conseguir avistar a clareira na primeira tentativa, imagino que poderemos passar outro dia aqui devido à distância ao ponto de abastecimento que vem sempre aumentando.

Agora pensando melhor esta é a minha primeira preocupação, a segunda é a nossa comida que está chegando perto do fim e a terceira é a minha falta de comunicação com Flávia. Neste domingo vamos completar 15 dias sem conversar, espero que ela não esteja preocupada e tenha um pouco de paciência. Tomara que esta situação de falta de comunicação melhore amanhã.

Domingo, 21 de Setembro de 2003

Estamos aqui no mesmo acampamento desde quinta-feira, o heliporto está praticamente pronto, o sol está brilhando forte todos os dias e esperamos o helicóptero a partir de terça.

Hoje aconteceu algo incrível por aqui. Justamente o Daniel, que quase nunca sai para pescar decidiu ir a pesca de barco. Eu o acompanhei para tentar pela milésima vez falar ao telefone com o escritório e passar as coordenadas de nosso heliporto. Faz mais de uma semana que aproveito toda clareira que aparece, cada momento de céu aberto, e ultimamente o nosso heliporto para olhar no telefone e ver se ele apresenta o sinal de cobertura de satélite. E foi lá no meio do rio, quando eu olhei já completamente descrente de que essa joça fosse voltar a funcionar que vi o indicador de sinal se iluminar. Meu coração começou a palpitar mais rápido: “Daniel, Daniel, tem sinal cara, tem sinal, uhuuuu” “Liga, liga logo antes que desapareça”, ele disse. Foi então que eu pensei, hoje é domingo, é hora do almoço, se eu ligar no escritório/casa da empresa pode ser que não ache e o Adjair pois ele deve ter saído para almoçar. A Flávia, pode acontecer a mesma coisa. E agora? E se eu tiver somente uma chance? Escritório do Brasil, tem sempre segurança lá, 24 horas, 7 dias por semana. Disquei, chamou, me atenderam. Meu coração queria sair pela boca, começei a falar as coordenadas como um louco, o porteiro não sabia nem como copiar esse monte de números, me acalmei e finalmente consegui passar as coordenadas e as instruções de como as anotar adequadamente. Desliguei pensando, vou ligar para o Adjair agora, más já não havia mais sinal. Ficamos uma hora alí e nada do sinal aparecer novamente. Imaginei papai do céu abrindo uma brechinha para eu captar o sinal somente naquele preciso momento. Nunca mais consegui falar ao telefone. Um milagre, pensei eu.

Segunda-feira, 22 de Setembro de 2003

Hoje eu fui acordado com um dos barulhos mais lindos que eu já ouvi na minha vida, o de um helicóptero aproximando-se. Foi uma enorme surpresa já que o esperávamos para terça ou quarta-feira, porem já tínhamos tudo pronto. Me aprontei em dez minutos e quando cheguei ao heliporto o pássaro de ferro já estava no solo. A campanha irá começar a partir deste mesmo ponto depois das boas e merecidas férias de todos nós.

Nos despedimos daquela floresta com a satisfação da missão cumprida e até com certa disposição para encarar novamente o desafio e completar o nosso objetivo. Do alto eu via a copa das árvores e pensava nas belezas, surpresas e desafios que se escondem embaixo daquela vegetação e agradecia ao meu anjo da guarda poder compartilhar pessoalmente meu Diário de Campo com as pessoas que amo.


Piloto ao fundo, Miguel e Yo abraçados e felizes por estar voltando com a missão cumprida.




---XX---XX---


Post-script: Enquanto eu estava na mata Hugo Chavez aumentava seu discurso nacionalista e chegou a tomar de uma empresa de prospecção um jazigo mineral que a mesma tinha encontrado após anos de pesquisa e milhões de dólares investidos. Obviamente a Venezuela deixou de ser um alvo de pesquisa para a minha empresa e nada foi mais triste que ver as amostras que renderam tanto suor e esforço irem para o depósito sem sequer completar as análises.

3 comentários:

Naná disse...

Horizonte,
Muito bom ler seu blog...
Vc podia postar coisas mais recentes.
Grande abraço Naná

deaconti disse...

Gostei muito de ambos os relatos, Hori. Dias eletrizantes, meu amigo!

beijão e saudade

ram horizonte disse...

Vou postar Naná, com certeza.