Lucapa, assim como o resto de Angola, sofreu fortemente os males da guerra e o abandono, mesmo que as minas aluvionares nunca tivessem parado de funcionar. Hoje a região está completamente sub-desenvolvida, sem saneamento básico, sem energia elétrica e com um hospital que quase me arrancou as lágrimas quando o visitei. Não consigo entender porque em outras regiões eu vejo claramente os sinais da reconstrução nacional chegando, como na vizinha cidade do Saurimo, que entre a minha primeira e última passagem notei um progresso incrível. Como é que uma região que já deu, e ainda dá tanta riqueza para Angola continua tão subdesenvolvida e esquecida pelo seu governo? Bom, imagino que deve ser pelo mesmo motivo que Macaé no estado Rio de Janeiro, cidade que mais recebe royalties da indústria do petróleo, é como é. Eu não conheço, mas recentemente um amigo meu que mora lá se referia a ela como “Macamerda”. Ficou claro que não é um dos melhores lugares para se viver, nem lá, nem aqui.

Na base vivemos aproximadamente umas 40 pessoas, entre angolanos, brasileiros, sulafricanos e alemães. Já fomos mais, porem a crise mundial também por aqui já se fez sentir. Todas as comodidades possíveis estão disponíveis na base, como Internet banda-não-tão-larga-como-gostariamos 24 horas, salão de jogos, televisão satélite, salão de festas, academia de ginástica, campo de vôlei, campo de futebol e área com churrasqueira. Nós trabalhamos de segunda a sábado (até o meio dia) e nos finais de semana não podemos contar com a Vila do Lucapa para fazer algo diferente, porque ali não tem praticamente nada interessante, nem uma discoteca, um restaurante, ou sequer um supermercado. Então a nossa família, porque acabamos virando família mesmo convivendo tanto tempo juntos, tem que se virar por aqui para fazer algo diferente nos finais de semana e sair um pouco da rotina. De vez em quando tem uma festinha mas o mais comum mesmo é curtir embaixo de uma grande mangueira na área das tendas. Ali rola churrasco todo final de semana, de vez em quando feijoada, vaca atolada ou almoços típicos Angolanos. Nunca falta a música e tem até quem se atreva a tocar um sambinha de vez em quando.
Amistoso de final de semana, aqui são todos da casa.
Picanha.
"Quem não gosta de samba, bom sujeito não é..."
Do meu lado, ultimamente tenho praticado bastante caminhada aos domingos. É uma oportunidade boa para ficar a sós comigo mesmo, refletir e até fazer as minhas primeiras tentativas de meditação, tentativas disse bem, mas sei que uma dia eu chego lá. No últimos 2 domingos levei a minha máquina fotográfica e o resultado me tem agradado bastante, estão lá no meu Flickr no Set Lucapa.
Damas! Posso jogar?
Ontem entretanto decidi mudar um pouco a rotina, em vez de ir partir para o isolamento na minha árvore de sempre, fui explorar o bairro do Roque, bem em frente da nossa base, e que por incrível que pareça eu jamais tinha entrado nestes 3 anos de Angola. O passeio rendeu altas fotos, e muitos amigos. Causei um alvoroço no bairro. À medida que eu ia entrando todo mundo queria ser fotografado e crianças apareciam de todos os cantos. Era quase impossível fazer as fotos do jeito que eu gostaria, com um sujeito só. Sempre tinha gente entrando na frente, atrás, passando, pulando, fazendo caretas. Aos poucos eles foram pegando o espírito da coisa e me ajudavam gritando, só ele, só ele. Depois de tirar a foto eu não tinha como fazer diferente, tinha que mostrar para todo mundo. Formava-se então uma enorme roda ao meu redor e eu tinha que ir passando a câmera para todo mundo ver, não faltavam os empurrões e até uns tapas na cabeça, mas com certeza todos estavam se divertindo com o “chimbale” aqui (atenção, não é chindele não, é chimbale mesmo, chindele é Umbundo, aqui se fala Tchokue).

Roubando um comentário de um desconhecido no meu Flickr: Criança Sonha!

Tem até placa e controle remoto
As crianças, espertas como sempre, entenderam o que eu queria fotografar e me guiavam, “tio, olha aquela lavando roupa; tio, olha a mamã cuidando da mandioca; tio, faz uma foto minha; tio, a moto; tio, seu cabelo é natural?, tio, tio, tio....” a media que eu avançava mais e mais crianças iam se juntando, no final era como uma procissão, eu andando e muita criança me seguindo e gritando e chamando mais crianças, pense uma bagunça bem grande. Vi dois amigos jogando damas, desafiei, me sentei, e ganhei, não sem antes suar bastante de tanta torcida ao redor. Levei uns pirulitos para distribuir mas se eu tivesse tirado o primeiro do bolso eu provavelmente provocaria uma grande briga e até corria o risco de ficar pelado, voltei com eles no bolso mesmo, vou deixar para quando for para as bandas mais isolado.

Mamã lavando roupa

Mamã cuidando da mandioca. Sempre as mulheres trabalhando. Hoje era 8 de Março dia Internacional das Mulheres. Parabens mamã, parabens mulheres.
Depois, mesmo que eu quisesse já não conseguia mais ficar sozinho, acabei encerrando o passeio por alí mesmo, e as crianças todas me acompanharam até o portão da empresa. Agora eu quero ver é como é que eu vou fazer para aparecer por lá novamente, vai ter tanta gente me cobrando a foto no papel e sei que vai ser inútil tentar explicar que estão todas na Internet.
Tchao chimbale!
Ehhhhhhhhhhhhhhhh
3 comentários:
Ai chimbale, que história linda! E as fotos estão muito nices!! Quem sabe um dos seus amigos tomou você como modelo e um dia vai virar fotógrafo...
Obrigada por partilhar!
Ram! Q lindo relato!! Adorei!
Vc pode receber visitantes ai?! hehehe
Tenho planos de conhecer a Africa ano q vem.
Agora vc tem flickr q legal!! :)
Fala brother, cara q emoção ler seus relatos, acho incrivel todas as historias de mundos desconhecidos q transbordão dos seus relatos.
Bom saber tbm q daqui a poco estas aqui, em casa, no teu lugar de sempre, onde agente sempre se encontra e sempre se encontrara.
Grande abraços e muitas saudades do seu hermão mais novo,
brodinovo
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