Já virei o ano diversas vezes na maior queima de fogos do mundo e acompanhado de dois milhões de pessoas em Copacabana, já o fiz em outras praias do Brasil, assim como com meu irmão Zoroastro acampando sozinhos no interior de São Paulo. Também passei outras tantas viradas na Colômbia das quais as mais especiais foram as que desfrutei ao lado da minha família paterna, vó Tita e vô Tito entregaram ao mundo 10 filhos, imaginem as festas com toda essa gente reunida. Mas estava com vontade de experimentar algo novo e porque não a minha primeira virada do ano na África?
A idéia foi colando e em novembro a Anita e eu decidimos que iríamos passar o ano em um país de nome estranho que eu jamais tinha ouvido falar na minha vida, a Suazilândia. Trata-se de um minúsculo país de 17.000 Km2 (a grande São Paulo mede 8.000 Km2) que se localiza praticamente dentro da África do Sul bem na fronteira com Moçambique.
Mapa da África Austral. Dentro da África do Sul há dois paises independentes, Lesotho e Suazilândia.
Cada país Africano, por menor que seja, já é de por si só todo um universo à parte. As fronteiras que delimitam os países mais ou menos como as conhecemos hoje em dia foram traçadas na Conferência de Berlim em 1884, quando colonizadores europeus dividiram-se o continente entre si sem nem sequer conhecer a geografia do continente e muito menos os reinados, monarquias, grupos étnicos e outras sociedades tradicionais africanas ali existentes. Muitas dessas fronteiras traçadas eram linhas retas de latitude ou longitude determinada que separaram pelo menos uns 190 grupos étnicos: Os Bakongos foram divididos entre o Congo Belga, o Congo Francês e a Angola Portuguesa; a Somália foi distribuída entre os Ingleses, Franceses e Italianos. Por outro lado, os europeus chegaram a colocar dentro de uma mesma colônia até 250 povos completamente diferentes, sem história, religião, cultura ou dialeto em comum, como foi o caso da Nigéria. Em outras regiões, inimigos de longa data passaram de um dia para o outro a fazer parte de um mesmo país, como no Sudão e o Chad, juntando as porções desérticas do Saara com floresta tropical ao sul, e povos muçulmanos e não-muçulmanos sob latente hostilidade entre si *. De todas as monarquias e reinados que existiam na África hoje pode-se afirmar que a Suazilândia é a última monarquia absoluta. Monarquia formalmente declarada, porque tem muito presidente africano que “reina” há muitas décadas no trono do seus respectivos países, e alguns até tem a cara de pau de dizer que governam um país democrático, como a Vossa Excelência Senhor Presidente Robert Mugabe. Mas enfim, Ce´s L’Afrique.
A virada do ano na Suazilândia é celebrada pelo seu povo em um festival que dura 3 semanas e cuja data de início é cuidadosamente escolhida pelos astrônomos suazis dependendo das fases da Lua. O Incwala, como se chama, é também conhecido como o “Festival dos Primeiros Frutos” e unifica o país para receber a benção de seus ancestrais, santificar o reinado de Vossa Majestade e iniciar a época da colheita com as melhores das esperanças.
O festival começa em uma Lua Nova próxima do nosso fim de ano. Dois grupos do clã “Bemati” – O Povo das Águas – partem da casa da mãe do rei com dois objetivos diferentes: O primeiro e maior grupo, parte rumo à Catembe, no sul de Moçambique, para colher a água do Oceano Índico que se acredita ter poderes místicos. O segundo e menor grupo, parte para o norte do país coletando as águas dos rios enquanto o Rei fica confinado em seu palácio. Os dois grupos regressam de suas respectivas missões e se congregam na residência real, antes da Lua Cheia. Ao anoitecer o Rei prova alimentos sagrados preparados com a espuma das águas que lhe trouxeram, e inicia o ritual cuspindo-os no chão de Leste para Oeste. O Pequeno Incwala então começa. Por dois dias o povo veste roupas tradicionais, dança e canta enquanto o Rei permanece trancado em reflexão.
O Grande Incwala começa na noite de Lua Cheia, durante este tempo o Rei permanece em isolamento e em comunicação com os espíritos dos ancestrais. O tempo de espera reflete o grau de maturidade do Rei, e à medida que os anos passam, as conversas com os espíritos ficam mais longas e consequentemente as festas também.
No primeiro dia, o rei envia alguns jovens a uma marcha de 40 Km para colherem ramos de uma árvore sagrada iluminados pela luz da lua. Somente jovens considerados “puros”, ou seja, que não tenham sido casados ou engravidado uma mulher, podem tocar a árvore, caso contrário suas mãos se tornarão brancas e os “puros” de verdade vão lhe encher de porrada. Os jovens regressarão à meia noite com os ramos coletados e enquanto descansam os anciãos usam-nos para construir um local sagrado para o Rei. Os guerreiros vestem-se com as roupas do Incwala feitas de couro e pele de leopardo e começam a cantar musicas enquanto um boi negro é trazido para o pavilhão de rei e é usado no ritual.
No terceiro dia do Grande Incwala outro boi é sacrificado, e enquanto os guerreiros dançam o Rei volta a surgir diante do seu povo trajado de elegantes vestes tradicionais. O Rei dança e toma em suas mãos uma abóbora da primeira colheita que ele morde e arranca o primeiro pedaço de sua casca. A multidão canta e dança de alegria. Agora todos podem comer os “Primeiros Frutos” da colheita com a benção dos ancestrais.
O quinto dia é dedicado à meditação.
No sexto dia, uma imensa fogueira é acesa onde são queimados artigos que representam o ano que passou. O Incwala termina com muitos cantigos, dança e festa.
Definitivamente é uma festa muito especial, e se você está ansioso para ver as fotos imagine eu então para curtir essa balada. Pois acontece que os astros não estavam a nosso favor nesse sentido e o Incwala este ano acabou por ser celebrado 2 semanas antes da nossa chegada.
Mesmo assim a Suazilândia já tinha nos atraído e continuava sendo uma ótima opção para se conhecer mais um país africano enquanto fazíamos como o povo das águas e migrávamos para o Oceâno Índico por estrada.
Visitamos a reserva reserva natural das Quedas de Phophonyane, a capital Mbabane e a bonita região do Vale do Céu. Tivemos a oportunidade de conhecer uma vila tradicional Suazi, ver suas danças e aprender como eles vivem tradicionalmente no país: Ante tudo, e como é costume na África, há muito respeito pelos “mais velhos”. Tudo que alguém da vila fôr fazer deverá consultá-lo e sua última palavra será respeitada. Vai comprar um boi? Fala com o mais velho, quer casar com aquela menina de 12 anos e pagar a família dela 30 cabeças de gado, fala com o mais velho, briga de família, o velho resolve. Os homens andam sempre na frente das mulheres e cada um pode casar-se quantas vezes quiser, sempre e quando puder sustentar todas as suas esposas. Os suazis são um povo muito respeitoso e educado, e é com enorme alegria que você irá receber um ‘bom dia’ de volta, principalmente se você se atrever ao pronunciar a expressão na língua local.

Nosso quarto na Reserva Natutal de Phophonyane. Arquitetura tipicamente Suazi.
Reserva natural Phophonyane
O próprio Rei, Sua Majestade Mswati III tem atualmente 22 esposas. Desde 1986, ano em que assumiu definitivamente o trono após completar 18 anos, ele se casa com uma mulher diferente todo ano em outra cerimônia tradicional nacional. Seu pai, o Rei Sobuzha II, teve 80 esposas e deixou mais de 1000 netos! Todas as esposas do Rei são escolhidas pelos anciãos e são sempre das diferentes tribos do país para assegurar a unificação de todo o Reino.
Mulher em trajes típicos na aldeia Suazi.
Esse dia é marcado com uma cerimônia especial chamada “Umhlanga ou Reed Dancing” que traduzindo literalmente significa festa “A Dança das Canas”. Além de ser o dia do casamento do rei, também vêem à capital damas de todo o Reinado para se exibirem aos homens e se tiverem sorte saem da cerimônia com uma proposta de casamento.
A festa que se celebra no estádio da capital é aberta a todos homens do país assim como a turistas e pessoas que queiram testemunhar. As mulheres do Reino, as turístas e outras irão sentar-se na tribuna onde não bate sol e na qual o único homem ali sentado em seu estrado será Sua Majestade. Os homens vão torrar na tribuna que fica exposta ao sol e observar o desfile das candidatas, que pode ter até 10.000 mulheres exibindo seus atributos (somente a parte superior) para os pretendentes a futuros esposos. Deve ser sem dúvida uma cerimônia bem interessante e normalmente ocorre entre finais de Agosto e começo de Setembro, dependendo dos astros é claro. Agora não adianta os solteirões encalhados me perguntem se um estrangeiro pode ir lá e escolher uma mulher Suazi nesse dia porque eu não me atrevi a perguntar.

Música e dança tradicionais na aldeia Suazi
E ano novo então? Nosso amigo Google nos falou de uma festa mexicana na capital e como não havia nada tradicionalmente Africano à vista decidimos encarar para não passar batido. Fomos até animados com a idéia de dançar una salsa y un merengue, mas quem falou que Africano sabe fazer festa mexicana? Da lá era só a decoração, muitos sombreros mexicanos e a comida, porém faltava picante e minha guacamole bate a deles em 10 a zero, ahhh e tequila é claro, havia muita, e de graça. Nem preciso dizer que a festa bombou né? A casa estava cheia de vizinhos sulafricanos e turistas de outras nacionalidades. Haviam DJ’s e tocou uma banda da Cidade do Cabo que mandou muito bem um folk com influência africana. Os caras me apresentaram pela primeira vez um instrumento de percussão com som muito legal, coloco aqui o vídeo e quem por acaso souber o nome do instrumento por favor me avise.
Arriba, arriba, arriba...
A festa foi no House on Fire, Washa Umkhukhu na língua local.
A casa pegou fogo mesmo
Happy new year! Um feliz 2009 para todos!
Outras boas impressões do país são os artesanatos locais, principalmente uma fábrica de velas bem especiais, e uma visita a uma fábrica de extração de óleo de canho, Sclerocarya birrea. O canho, que em inglês se chama marula, é o fruto de uma árvore endêmica do sul da África de onde de se produz o famoso licor Amarula. A castanha do canho é muito rica em óleo com excelentes propriedades medicinais e cosméticas. Entretanto o mais interessante e inspirador do projeto é a sua variável social já que a fábrica compra as sementes somente de comunidades locais que se organizam em cooperativas para dar uma segunda forma de renda às famílias. Todo o processamento do óleo é manual e o projeto só emprega mulheres para o seu processamento, e preparo dos cosméticos.
Muita Luz sempre. Vela artesanal produzida por Swazi Candles.
Entramos em 2009 com uma excelente energia depois de 3 dias na Suazilândia. Agora era hora de tomar o rumo do povo das águas e partir para o Oceânico Índico onde eu iria conhecer a família da Anita que é justamente de Moçambique.
Banda Hot Water mandando bem na virada do ano. Coloquei o vídeo só para descobrir o nome desse instrumento de percurssão. Quem conhece?
* Fragmento de texto adaptado do livro: The State of Africa, M Meredith.
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